Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

afonsonunes

afonsonunes

24 Nov, 2010

Geral é geral

 

Reza o meu dicionário que geral é qualquer coisa comum à quase totalidade ou a grande número. Como hoje é dia de greve, dita geral, parece-me que há aqui qualquer coisa que não me cheira nem a geral, nem tão pouco a comum, muito menos ainda a grande número ou à totalidade dos cidadãos, considerando o país no seu conjunto.

Se o país fosse um recinto de espectáculos, a geral seria apenas o conjunto de lugares mais baratos. Logo, ficariam de fora todos os restantes, que são a grande maioria: os camarotes, a plateia e o primeiro e segundo balcões. Normalmente, a geral, é hoje o terceiro balcão de qualquer sala mais ou menos normal.

Ora, neste país, as greves apenas são feitas por algumas filas da geral e uma boa parte da plateia. Bem-feitas as contas, a sessão grevista deixa de fora a grande maioria da lotação da sala de espectáculos. Não adianta andarem a dizer-nos que aqui e ali se verificaram adesões de noventa por cento, ou próximo disso.

Falar de transportes, ensino e saúde, não é falar do país, tanto mais que se sabe que nestes sectores, há uma espécie de ciclo vicioso que conduz à adulteração dos números de adesão. São sectores que antes da greve já estão bloqueados por condições que não permitem a liberdade de quem quer mesmo trabalhar.

Os grevistas devem ter toda a liberdade de decisão, tal como a devem ter todos aqueles que entendem que devem em ir trabalhar. Ora o que acontece é que os piquetes de greve e muitos dirigentes entendem que têm o direito de impedir quem não lhes siga o exemplo. Por outro lado, há empresas e outros estabelecimentos que resolvem, antecipadamente, fechar as portas.

É assim que se ouve dizer a não aderentes e não só, que há trabalhadores prontos a trabalhar, só que não há quem aproveite a sua disponibilidade, quer em hospitais, onde há médicos mas não há pacientes, quer em escolas, onde os professores estão disponíveis, mas não há alunos, porque ficaram em casa, devido a comodidade ou a má informação da véspera.

Como simples curiosidade, gostava um dia de saber, por exemplo, quantos professores no total, descontaram o dia de greve nos vencimentos, comparado com o número de professores que não deram aulas nesse mesmo dia. O mesmo se pode dizer do pessoal hospitalar, médicos e enfermeiros, que não trabalharam, mas estiveram disponíveis nos seus postos de trabalho. Logo, não perderam o respectivo valor do dia.

Portanto, boa ou má, houve greve, mas nunca me queiram convencer que foi geral, a menos que o meu dicionário seja mentiroso, como muita gente que eu conheço. Aliás, para além do que já disse, cito o caso das muitas lojas chinesas que há no país. Alguém é capaz de me dizer uma sequer, que tenha feito greve? A verdade é que os chineses apenas se limitam a seguir o exemplo dos portugueses do seu ramo de negócios.

Igual análise se pode fazer dos bancos, dos restaurantes, dos cafés, dos pequenos e grandes mercados e de toda a actividade privada, onde só à lupa se pode vislumbrar um ou outro caso de adesão significativa. Nas próprias repartições públicas, refere-se com grande ênfase aquelas que fecharam as portas, mas não se diz nada da grande maioria das que mantiveram a sua actividade normal ou perto disso.

Nas próprias reportagens de rua das televisões, é notório o número de pessoas que se queixam de não terem condições para ir trabalhar, por dificuldades que lhes são alheias e lhes são impostas por outros. As próprias televisões, com tanta propaganda feita da greve, apregoando um país parado, não aderiram, como mandava a coerência. Tal como as rádios e os jornais.         

Conclui-se que a informação é tão geral como a greve, ambas muito sectoriais, muito voltadas para o foco que lhes mostra a árvore em lugar da floresta. Reparo que até há por aqui bem perto, uns anúncios de greve, os quais, só por si, já representam algum trabalho, nem que cheire a propaganda, pois fazer greve é parar, mas parar mesmo.  

Finalmente, a greve também tem algumas coisas boas, mesmo para quem não é lá muito amigo delas. Há ambientes que estão muito menos poluídos no dia de hoje. Mas não foi por isso que eu não fiz greve aqui.  

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.