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afonsonunes

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No dia de ontem, dia de greve, houve dois trabalhadores especiais que se fartaram de trabalhar, embora tivessem sido os primeiros aderentes à paralisação, se considerarmos que eles se devotaram a ela com muita antecedência. Para ser mais exacto, eles andaram a fazer a greve durante meses.

São eles o Manuel e o João. O primeiro esteve no seu ambiente habitual, desempenhando o seu trabalho habitual, enquanto o segundo passou de primeiro, quando no seu ambiente, para segundo, nesta sua nova tarefa de acompanhante de luxo. Tarefa que não tem nada de desprimoroso, se atendermos à categoria do acompanhado.

Se eu quisesse meter um pouquinho de veneno, poderia dizer que ambos foram fura-greves, pois quem está de greve está parado e eles não pararam um instantinho sequer em todo o dia, correndo de um lado para o outro, sempre com o João a fazer um esforço tremendo para não ficar para trás. Pareceu-me uma espécie de falta de pedalada.

 Vamos imaginar que os três milhões de grevistas lhes seguiam o exemplo, fazendo a correria que deixaram exaustos o Manuel, e muito mais o João. Com três milhões e mais dois a dar o litro bem escorrido, perdão, bem corrido, o país ficava um autêntico tornado. Lá se perdia o objectivo principal da greve, que era parar o país.

Mas, cá na minha análise mais aprofundada que o normal nestas circunstâncias, o país esteve mesmo parado, tudo porque entre os parados estavam dois milhões de funcionários públicos. Ora, há quem diga em surdina, que nunca ninguém viu correrias nos funcionários públicos, coisa que eu não confirmo nem desminto.

 A vingar esta tese, é indesmentível que o país parou mesmo, pois se ele já está parado quando os funcionários públicos ainda vão tomar a bica de manhã e de tarde, mais uns minutos várias vezes ao dia para fumar um cigarrito em local pouco visível, ficou mesmo paradíssimo, por causa dos dois milhões parados o dia todo.

Que ninguém esteja a pensar que é minha intenção estar aqui a atribuir-lhes responsabilidade pela paralisação geral, pois essa pertence exclusivamente a quem lhes dá os bons exemplos que eles seguem milimetricamente, para não serem desmancha-prazeres no seu local diário de repouso.

Portanto, só há uma conclusão a tirar de toda esta ladainha. Se o país parou, esteve parado ou tem andado parado há muito tempo, alguém tem de voltar a lançar aquele grito de há anos atrás, grito que teve a sua origem remota em Boliqueime e que ecoou por Lisboa, já nem me lembra a que propósito: ‘Deixem-nos trabalhar’.

Naquela altura plena de vigor, era o autor do grito que queria e implorava que o deixassem trabalhar, a ele e aos seus acompanhantes dependentes. Agora, nesta época de cansaço geral, só pode ser o Manuel e o João a pedir tamanho sacrifício aos seus três milhões de seguidores. Mas, é óbvio que bem vale a pena, sobretudo, para que não se perca uma união que, de facto, tem agora todo o sentido.

Têm pois de pensar no trabalho intenso e produtivo que levou à sua união, quem sabe, se depois de terem parado para pensar. Se acaso, por qualquer motivo, a união se desfizer, é caso para dizer que parem, não para pensar, mas para descansar.

Até lá, com a tentação dos milhões, convém ir jogando, jogando sempre, pode ser que um dia lhes saia qualquer coisa parecida com isso. Mas, não se esqueçam: Deixem-nos trabalhar. Aos outros, claro.

 

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