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afonsonunes

afonsonunes

26 Nov, 2010

Dois em um

É verdade que Passos está farto de nos dizer como está este país, mas ainda não nos disse uma única palavra sobre como está o seu partido. Que está partido, ninguém tem dúvidas, mas convinha que nos dissesse se está tão atento ao que se passa na sua própria bagunça, como parece estar em relação à bagunça dos outros.

Nem era preciso ter esperado pela votação do orçamento para compreender que ele é o mestre-de-cerimónias que faz a ligação, ou a desligação, entre os muitos baronetes que querem disputar a primazia na influência sobre a tomada de decisão a decisão, sempre que os interesses pessoais não são coincidentes.

Para quem parece estar já convencido de que está a um passo de ser primeiro-ministro, ainda tem que dar muitos passos para conseguir convencer todos os seus convivas a tomar um pequeno-almoço em conjunto, antes de ter como certo, que o esperado próximo banquete vai mesmo ser um repasto agradável e de fácil digestão.

Desta vez foram os quatro do madeirense Alberto a estragar aquela disciplina que já era indisciplina palpável há muito tempo. Certamente que não deixará de o ser para todo o sempre, se os passos do mestre-de-cerimónias não forem no sentido do regabofe que sempre foi, mas que não colam com a imagem que Passos tanto se esforça por querer mostrar.

Parece-me que quem não domina um partido do qual precisa, por inteiro, a todo o momento, quando for governo, nunca poderá dominar um país que, como é sabido, está extremamente dividido e extremado que é, aliás, uma das causas, senão a grande causa, para o estado em que nos encontramos há muito tempo.

Se Passos pensa que lhe basta chegar ao poder para fazer o que quer, ou o que pretende fazer, só porque julga que tem ideias, o que também não é um dado adquirido, está completamente enganado. Não só porque não domina o partido, enquanto não garantir lugar no banquete a todos os seus, como os amigos externos de hoje vão, inevitavelmente, mudar de trincheira.  

Como é habitual, apenas poderá contar, e nem sempre, com o amigo a meio tempo Paulo, e isto se ambos conseguirem votos suficientes para suavizar as vozes que, na nova consonância que se vai formar, se erguerão contra tudo aquilo que parece fácil agora, mas que se tornará intransponível no momento da verdade.

Nem é preciso ser bruxo, pois basta olhar para trás, para se ver como os melhores e os piores primeiros-ministros, no conceito das diferentes correntes partidárias, se viram sempre entre a espada e a parede sempre que pretenderam tomar decisões estruturais que não nos conduzissem para o charco em que nos encontramos hoje e onde os tubarões espreitam escondidos no lodaçal.

Ainda está por ficar bem às claras, quais foram os primeiros-ministros que tentaram mudar as coisas e não os deixaram, e os que podiam tê-lo feito e preferiram criar as seitas que, de tanto engordarem, acabaram por estar hoje a começar a pagar, embora a custos muito reduzidos, os rombos que o país ainda não sabe se conseguirá tapar.

Se Passos e os seus pensam que tudo volta a ser como dantes, bem podem tirar daí o sentido. Se pensam que depois de bem instalados, a vidinha está tratada, estão muito enganados. Se julgam que os tachos vão ser suficientes para matar todas as vontades de comer na mesa do orçamento, nem pensem nisso.   

Já não é uma questão de serem mais ou menos sérios que os outros. No que eles estão completamente enganados, é que o mundo não é o mesmo de quando eles lá estiveram e se amanharam. Nessa altura havia de tudo para todos. Por isso é que hoje não há nada para ninguém, quer eles acreditem quer não. Depois, já não se pode esconder como nesse tempo.

Se acrescentarmos a tudo isso, que não é pouco, um partido que ainda hoje, na votação do orçamento, mostrou que é um autêntico dois em um, não ajuda nada à esperança de futuro.