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afonsonunes

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27 Nov, 2010

Caldo entornado

Completamente entornado, a ponto de não restar uma colherzinha das de café, ao menos para podermos dizer se o caldinho era bom ou era apenas uma zurrapa como tantas outras que nos impingem a toda a hora e em qualquer lugar. Desta feita o caldo foi cozinhado com uma sopinha do pacote de letras dos jornais e, noutra panela, pelas vozes e gestos dos telejornais.

Ainda agora me parece estranho que um caldo tão elaborado, tão suculento ao tocar na língua, tão aveludado ao entrar na vista, tão cheiroso à pituitária, tão badalado na propaganda, se tivesse entornado tão inesperadamente, por causa de uma surpresa que só o é, porque foi de todo contra a encomenda.

Não se compreende, pelo menos eu não, que estando tudo tão bem preparado, melhor, tudo muito bem cozinhado, os advogados de toga verdadeira, que nada têm a ver com os advogados de banco de jardim, fossem escolher para seu bastonário aquele que tanto foi proclamado em público como a ovelha, ou o carneiro, que não cabia dentro do rebanho.  

Afinal o rebanho, por maioria absoluta, dizem, elegeu-o sem margem para dúvidas dos seus delatores e de todos aqueles que, por fora, tudo fizeram para que ele fosse considerado um trapaceiro qualquer. Afinal, repito, de entre os muitos trapaceiros que tem o país, o bastonário agora reeleito não é um deles.

Tão pouco o são todos aqueles que o elegeram, visto que souberam ver nas suas palavras o verdadeiro significado que outros bem tentaram denegrir, sem resultado. Os números assim o indicam pois, quando eles atingem tais proporções, numa classe tão habituada à discussão de grandes causas, não se pode sequer torcer o nariz.

Para mais, só não quer ver quem tiver uns argueiros grossos na vista, pois as palavras do bastonário sempre soaram a reviravolta no patético estado da justiça e na patética atitude de muitos dos seus intervenientes, que deviam explicar muito claramente, porque não querem ver alteradas todas as situações patéticas do sistema em que estão inseridos. 

Para quem está de fora, como eu estou, certamente que sentiu, com esta reeleição, uma sensação de caldo entornado. Não tenho a menor dúvida de que haverá dois tipos de caldo nesta panela que ainda está ao lume. Para uns, um caldo verde muito amargo, mesmo engrolado, para outros, um caldo creme de legumes, suave, delicioso.

Todavia para uns e para outros, sobressai aquela ideia de que o caldo está definitivamente entornado. Para os do caldo verde, o seu império está à beira de ruir, com o fim da sua base, que já foi sólida, mas deixa de o ser a partir de agora. Para os do caldo creme de legumes, o fim da mentira e da hipocrisia pode estar perto, pela chegada da verdade sem papas na língua.

O caldo até pode estar entornado para os dois lados mas se, finalmente, com o decorrer do tempo, se encontrar uma sopinha que acomode os estômagos dos dois lados, os cidadãos maltratados também poderão compreender melhor a distância que vai da mentira até à verdade. E anda por aí muita confusão a este propósito.

O bastonário diz que não ataca pessoas, antes denuncia situações. Haja quem prove que ele não procede assim. Mas que não se insista no processo caluniador da obsessão contra a pessoa, seja ela qual for, mesmo depois de a justiça não conseguir chegar onde tanto parecia querer.  

Portanto, que se entorne o caldo à vontade, mas que o bastonário prossiga o seu caminho.