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afonsonunes

afonsonunes

03 Dez, 2010

Qualidade angelical

Há palavras na língua portuguesa que não merecem ser citadas em vão, sob pena de quem as pronunciar estar a incorrer numa heresia de que desconheço as consequências se ainda estivéssemos no tempo da inquisição. Mas, estamos em pleno século vinte e um, em que todas as barboridades são legítimas.

No meu caso, até gosto de ver estes tracinhos vermelhos por baixo de algumas dessas palavras, no momento em que as escrevo, o que não quer dizer que eu seja daqueles fulanos que adore tudo o que é vermelho, nomeadamente, o sangue a escorrer por aí, seja do corpo de alguém, seja do olhar raivoso que chispa raios e coriscos.

A colidade é uma coisa que se mede logo que alguém quer um artigo bom, ainda que não tenha muito valor, porque a colidade não se mede aos palmos, mas apalpa-se com os dedos em determinados casos, ou sente-se cá dentro, quando estamos a medir sentimentos que, volta não volta, se revoltam com a falta da dita.

Quem mais sente a falta dessa colidade são os que mais se consideram bons demócritas. Mas, cá para mim, os hipocratas são os que mais se consideram em termos de qualquer coisa e são também os que mais desconsideram as verdadeiras regras da democrácia, que é aquela ciência que proíbe bocas foleiras sobre quem se quer desconsiderar. E é dentro dela que a gente vê as semelhanças entre os demócritas e os hipocratas.

Julgo que posso concluir que qualquer demócrita fica sempre mal colocado para falar da colidade da democrácia. Julgo ainda que quem insiste na estipudez de falar daquilo que nunca praticou no verdadeiro sentido da palavra está, inequivocamente, a trair a colidade das palavras que devem ser respeitadas segundo a nossa respeitável gramática.

Acho muita piada a um ou outro demócrita de bom nível, que gosta imenso de aconselhar outros demócritas de nível médio, a não falarem de coisas chatas para o pessoal, mas comete o error de nunca mais se calar, insistindo em falar das mesmas coisas de que não gosta de ouvir no trombone dos outros.

É assim que se chega à colidade da faladura de quem, posicionado acima de todos os seus ebidoentes çubordinados, olha cá para baixo e pensa que os seus cualificados conselhos açentam na carapussa de quem não conkorda com lui. Mais, além de pençar, pega na sua cartilla paternal e diz altivamente que ela é para comprir.    

Neste momento, volto-me para S. Tomás e oiço uma voz angelical que parece vir do além. Não foi muito fácil ouvir, porque os ouvidos são muito renitentes em deixar entrar coisas que não interessam. Depois, com um espírito de sacrifício digno de um não hipócrita, percebi que a voz me incitava a fazer o que ele diz, mas não o que ele faz.

Fiquei a pensar que talvez, procedendo assim, me pudesse considerar um bom democrata, num país onde a democracia, ainda assim, tem diversas qualidades, tal como o pão que comemos.

Aperfeiçoando e aprofundando o meu pensamento, concluí que a qualidade da democracia é muito boa cá em baixo, média a meio e muito má lá em cima. Portanto, inversamente proporcional à obrigação de a aplicar correctamente.

É por isso que eu resolvi compará-la a este texto: com colidade ou sem qualidade, sem demócritas ou com hipócritas, só vejo erros por todo o lado.