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afonsonunes

afonsonunes

10 Dez, 2010

Olá, Madrinha!

Em primeiro lugar não posso deixar de lhe agradecer o nome que me deu que, para mim, é das coisas mais bonitas que tenho. Até porque não tenho muito mais de meu, como a madrinha bem sabe. Agora, não vá pensar que estou a fazer este paleio todo a ver se me dá uma daquelas prendas que já estão no limite da proibição.

Não, madrinha, agora, eu não quero mais nada, pois um nome tão simpático como o meu, já é uma prenda de se lhe tirar o chapéu. Tanto mais que ainda foi posto no bom tempo, no tempo em que até os padrinhos tinham bom gosto a pôr nomes aos afilhados. Suponho que isso se devia ao facto de, frequentemente, os padrinhos e as madrinhas darem o seu nome de baptismo aos seus afilhados.  

Depois, também se dava o caso de, a maioria dos pais convidarem para madrinhas e padrinhos dos seus filhos, pessoas de família, ou muito próximas, quer pela amizade, ou pela muita estima e consideração recíprocas. Portanto, sempre se escolhiam nomes a condizer com esses pressupostos.

Além disso, havia a preocupação de trocar uns lamirés antes do baptizado, para que ninguém ficasse a torcer o nariz, ou não fosse essa coisa do nome de cada um, uma coisa muito séria. Imagine-se a gente a ouvir um daqueles nomes brutos como as caraças, que vem na nossa direcção e não estamos com os tímpanos sintonizados com ele.

É que hoje vêem-se madrinhas e padrinhos, que não têm gosto absolutamente nenhum, mais, demonstram até um mau gosto a que podia chamar-se estúpido, ao imporem nomes aos seus afilhados, que dava vontade de os aconselhar a que os enviassem de volta, com a obrigatoriedade de serem usados como identificação na testa dos seus criadores.

Madrinha, lembrei-me de te dizer estas coisas, porque sei que concordas comigo. Como certamente sabes, há madrinhas e padrinhos que se dedicam a pôr nomes às pessoas sem nunca terem sido convidados para os seus baptizados. E que nomes! Estou mesmo convencido de que, a estas madrinhas e padrinhos só lhes ocorrem os nomes que gostariam que lhes tivessem sido postos, quando do seu longínquo baptizado.

Olha madrinha, nem tenho lata para reproduzir aqui nenhum desses nomes. Até porque sei que podiam pensar que eu era igual a eles e a elas e com isso pensarem que tu, madrinha, também podias ter tido o mau gosto de me baptizar com os mesmos nomes de que eles têm a boca cheia.

Algumas dessas madrinhas e padrinhos até se dão ao luxo de espalharem os nomes das suas listas nos órgãos que, por sua vez, também são padrinhos de outros afilhados, todos sintonizados na mesma onda, constituída por todos aqueles que, nada sabendo ou querendo fazer, arranjam mil e uma desculpas para cuspir para o lado.

Diga lá madrinha, se não é verdade que ambos conhecemos casos em que milhentos padrinhos se ocupam diariamente da árdua tarefa de encontrar nomes porreiros para baptizarem o seu único e comum afilhado. São mimos que qualquer mimado poderia ser levado ao choro, primeiro, e ao desespero, depois.

Mas qual quê, madrinha! Já são tantos os nomes pelos quais o chamam, que ele se transformou numa espécie de muro onde os nomes batem, fazem ricochete, e aí vão eles direitinhos para os gentis padrinhos e madrinhas.

Mas, madrinha querida, também há o reverso da medalha, como já uma vez me disseste. São aqueles milhentos de afilhados que se desunham todos os dias por tentar captar a atenção de um padrinho, ou de uma madrinha, que lhes garanta o folar de um sorriso, o qual poderá vir a ser o princípio de mais um felizardo que não vai morrer moiro.

Adeus madrinha, que a carta já vai longa e a tua vista já não aguenta estas digressões com letra demasiado miudinha. Só porque me deste um nome tão decente, já podes dizer, e eu também, que és a melhor madrinha do mundo.