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afonsonunes

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11 Dez, 2010

O pacto dos patos

Não tenho bem a certeza mas tenho cá uma ideia que esta historieta pode ter começado em Aveiro, uma cidade onde começam as coisas mais esquisitas que a minha esquisitice congénita já alguma vez congeminou. Talvez seja porque tem uma ria muito grande, o que quer dizer que mete muita água.

Esse é outro sinal de que pode haver por lá patos, embora os mais vistosos só apareçam de vez em quando, para mostrarem aos de lá, que estão com eles no pensamento, principalmente, quando as águas andam mais agitadas, obrigando todos os patos a tocarem a rebate, para que nenhum deles seja alvejado.

Dois dos patos mais importantes entenderam fazer um pacto de não agressão, por agora, porque um objectivo mais amplo os anima para o futuro que, dia sim, dia não, nos prognósticos, pode vir a ser já amanhã. Mas, se não for amanhã, pensam eles, nunca passará de depois de amanhã.

Para já, não podem mandar bocas um ao outro como faziam até há poucos dias. É um sinal de unanimidade de gentilezas que, assim, ficam todas direccionadas no mesmo sentido. Se a referência é Aveiro, esse sentido é, inequivocamente, para sul e, como não podia deixar de ser, a cidade capital daquilo em que Aveiro não quer meter o bedelho.

Só pelo facto de haver dois patos sintonizados, o pacto já seria muito importante, numa cidade onde, justiça lhe seja feita, há muitas vozes a clamar por ela, como se uns quisessem uma limpeza geral da ria, enquanto os do moliço querem a ria quanto mais suja melhor. Dizem eles, que é assim que os negócios prosperam.

Mas o pacto entre dois, tem subentendido um terceiro, que só não entra nele com assinatura e tudo, porque diz que não deve mostrar a sua adesão à luz do dia, reservando-se o direito de participar de corpo inteiro desde o pôr-do-sol, até que o mesmo se levante no dia seguinte. Nos dias em que o sol não chega a ver-se a participação não tem restrições.

Como estamos em tempo de prendas, coisa que em Aveiro é expressamente proibido, este pacto, na prática entre três patos, corre o risco de vir a ser considerado inconstitucional, pois oferece muitas dúvidas, o facto de ele poder constituir uma prenda de dois deles ao terceiro, como prova de uma amizade que pode ser conivência em negócio.

Não sou constitucionalista, mas parece-me que não vem mal nenhum ao país que dois, ou mesmo três patos, façam os pactos que quiserem, porque a ria tudo engole e tudo evacua, desde que não lhe perturbem as marés. Sim, porque as marés são a vergonha dos homens e a boa-vai-ela dos patos.   

Obviamente que estou a referir-me à vergonha dos patos bravos, porque os outros, agora, deram em sentir vergonha mas só daquilo que não fizeram nos tempos em que voavam livremente por toda a ria e até por todo o lado.

Sim, porque nesse tempo havia comida para todos os patos, mas hoje não é bem assim. Até já ouvi dizer que isso da fome envergonha-nos. Tenho a certeza que há aqui um erro de palmatória, pois a ideia correcta é, sem dúvida, a fome envergonha-me. Há quem não tenha cuidado nenhum com os tempos, com os pronomes e com os verbos.

Já que me voltei para a fome e já fugi de Aveiro, embora continuando na ria e nos patos, ouvi dizer que as gaivotas famintas, porque os patos comem tudo, podem começar a ir à porta dos restaurantes a debicar os restos de comida, talvez as espinhas do peixe e os ossitos da carne, que os chefes passam a depositar ali, e não nos contentores.

Estou muito satisfeito porque ainda ninguém se lembrou de fazer isso com as pessoas. Sim, porque as pessoas não são gaivotas. Nem patos, tão pouco. E os chefes de barrete enfiado na cabeça, não iam gostar que lhes chamassem trouxas, ou otários, ou outra coisa qualquer. Uma dose, é uma dose para uma pessoa, e não uma dose para a pessoa que paga, e mais meia para quem lá vai depois comer à borla.

A menos que andem a escorrer os restos das travessas, e muito menos dos pratos, para matar a fome seja a quem for. É que hoje, já nem os cães, nem os gatos, comem restos.

Não era minha intenção, mas fugiu-me a escrita da ria, de Aveiro e dos patos. Peço perdão.