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afonsonunes

afonsonunes

13 Dez, 2010

Os palhacinhos

 

Não sei porque carga de água a vida tem de ser passada nesta dicotomia de termos de aturar palhaços tristes ou palhaços alegres, quando uns ou outros só entram no circo se nós comprarmos o bilhetinho que permite a abertura das portas.

Antes disso, cá fora, na propaganda preliminar, não temos outro remédio senão ouvir as gracinhas do triste e as piadinhas do alegre, embora já tenhamos pago antecipadamente as cotas de membros da organização de todas as palhaçadas que nos perseguem no dia-a-dia.

Estou convencido que é por isso, só pode ser, que depois haja umas claques de palhacinhos que tudo fazem por nos fazer crer que os seus ídolos, o palhaço triste e o palhaço alegre, são a coisa mais fofinha do mundo para cada uma dessas claques.

Como sempre acontece quando a luta aquece, a claque do palhaço triste, diz a pés juntos que o triste é o dito alegre e que o alegre não passa mesmo de um triste. Nesta coisa de palhacinhos é muito difícil encontrar um motivo para soltar um sorriso, ainda que envergonhado.

Porque está mais que visto que os palhacinhos de um lado e do outro, querem superar a graça que eles encontram nos seus ídolos, mas isso é muito difícil. Nunca se pode superar uma coisa que não existe. Por mim, só encontro alguma graça, no facto de uns palhacinhos, não pararem de chamar palhaço ao ídolo dos outros.

Isto é mesmo típico de palhacinhos que, ou já se consideram palhaços crescidos, o que é uma utopia, ou então estão repletos de esperança em que não tardará o dia da sua grande palhaçada. Podiam ser generosamente mais modestos, e ficar-se pela qualidade da sua pequenez.

Anda uma confusão muito grande na minha cabeça, por causa dessa história de quem é mais alegre ou mais triste, deixando para trás essa história do circo, com mais feras menos feras, com mais palhaços menos palhaços. Porque toda a gente pode ser alegre ou triste, por motivos que até podem não ter graça nenhuma.

Talvez nunca venha a compreender perfeitamente, porque raio de motivos pode haver mais alegria à esquerda que à direita, ou mais tristes à direita que à esquerda. Esse é o ponto fulcral das minhas confusões.

Pelo que vou ouvindo daqui e dali, consoante a aragem que corre meigamente, tudo parece indicar que a alegria desliza suavemente entre os ouvidos da minha direita, enquanto a tristeza invade alegremente os ouvidos da minha esquerda.

Sendo este indicador digno de alguma fidelidade, há nele uma contradição que não posso deixar de referir. Se a alegria é um estado de espírito dos alegres e se a tristeza é característica dos tristes, então os palhacinhos andam a ver tudo ao contrário.

Aliás, esta coisa de chamar tristes aos alegres, mais do que chamar alegres aos tristes, só pode acabar por deixar os tristes a rir e os alegres a chorar. Parece que, finalmente, descobri a lógica dos palhacinhos.