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afonsonunes

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Se eu perguntasse a um alentejano do fim do mundo, o que era um traque, provavelmente, ficaria a olhar para mim, como se acabasse de ouvir um, no palácio de S. Bento. Como ele não está para ligar a esses sons vulgares na imensidão da planície, nomeadamente, aqueles de que ele próprio é produtor, vira-se para o lado contrário e lá vai disto.

Para aqueles que ainda tinham algumas dúvidas, um traque é um som maior ou menor, consoante a tuba que o emite e a vontade e a força com que o emitente dá relevo ao acto. Há traques que não merecem o esforço de os pôr cá fora. Mas há outros que, mesmo quase inaudíveis, têm um valor inestimável.

O traque de um alentejano na planície, ainda que disfarçado no meio de mil ruídos campestres, no seu dizer, não passa de um simples pêdo, coisa que nem sequer faz calar os grilos que cantam nas proximidades. Mas se for um traque vindo do quarto de banho de um ministro, assume foros de acontecimento sensacional que vai correr o mundo todo.

Não importará saber se o ministro estava sentado ou de pé, se tinha o autoclismo a correr ou se ia puxá-lo a seguir. Seja qual for o ministro, não pode soltar um traque, porque se o fizer, logo haverá quem queira saber tudo sobre o dito. Por exemplo, se o cheiro saiu do quarto de banho, ou se ficou refém daquele compartimento sombrio, embora bem iluminado.

Mais, no dia seguinte haverá já quem saiba, de certezinha absoluta, que o tal ministro também costuma dar traques no seu gabinete ministerial. E essa pessoa, sempre carente de mais informação dirá, a quem ainda tiver alguma dúvida, que já pesquisou isso nos habituais canais onde aparece tudo o que nós quisermos encontrar.

Portanto, sem dúvida alguma, que esse ministro é indigno de permanecer no cargo, tanto mais que não teve a coragem de assumir perante o povo, povo que tem o direito de saber tudo, mesmo sobre traques, que é um traqueiro incorrigível. Porque essa coisa de dar traques, é um direito do povo, mas não um vício de ministros.

Sem dúvida alguma que qualquer ministro viciado em traques está a prejudicar a imagem do país e a honra de quem sabe que ele anda por aí a traquear por tudo quanto é sítio. Para quem ainda tenha dúvidas, aí está a garantia de quem o diz. Portanto, palavra de quem é especialista em traques de ministros e de todos os que lhes são próximos. 

 Além dos traques ministeriais, também há os chamados traques presidenciais. A diferença entre eles, ou melhor, a perigosidade de uns e de outros, consiste na proximidade dos seus titulares ao povo, que tem o privilégio de usar os traques como perfume dos ambientes que o rodeiam.

Sendo o presidente uma emanação do povo, é evidente que pode traquear à vontade que ninguém, mesmo os que gostam de saber tudo, se interessarão por eles. Ninguém lhes ouvirá uma palavra de censura nem de elogio. Já o mesmo não acontece com os ministros, que são uma seca para o povo, sobretudo para os que gostam de antecipar como sabido, aquilo que ainda mais ninguém descobriu.

A propósito, tenho a certeza de que, a esta hora, já há quem garanta que o ministro fez traque nos corredores do palácio, sendo ouvido o eco cá fora, no meio da rua, em pleno Chiado onde, por acaso, se encontrava uma daquelas vozes que ouve tudo e mais alguma coisa. Pois, eu sei que a voz não ouve, mas lá que transmite, não tenho dúvida nenhuma.

Para quem esteja a pensar que eu sou contra, ou a favor, dos traques que se ouvem, ou dos que se julga ouvir, esclareço que acho muita graça a estes últimos. Adoro a criatividade.