Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

Começou mais uma interminável série de idas e voltas ao tribunal por parte dos coitadinhos que não fizeram nada de mal, como é costume nestas coisas, pois nem sequer pilharam uma galinha para matar a fome aos desgraçadinhos que não estão lá em casa à espera que chegue qualquer coisa que se mastigue.

Por acaso este mega não sei quê, até nem desperta um interesse por aí além, talvez porque não tem personagens à altura, nem tão pouco personalidades dignas de realce, o que só aconteceria se tivessem uma ligaçãozinha, mesmo ténue, muito ténue, a um partido político, que é, como sabemos, o gostinho da mediatização.

Isto deve ser assim uma espécie de passagem de modelos de gente que vestiu as calças ao contrário, ou enfiou as pernas nas mangas da camisa. Coisas que não interessam, e muito bem, a gente que tem muito mais que fazer. Portanto, mais que explicada está esta aversão mediática e, por consequência, o esquecimento na opinião pública.

Se a gente se puser bem em cima do assunto, tem de concordar que um conselheiro não tem um carisma daqueles que arrebata, que nos leva a gritar: Malandro! Nem tão pouco entusiasma saber se o tribunal lhe manda repor meia dúzia de euros de que se esqueceu dentro da pasta da papelada.

É que nem sequer dá para lhe gritar: Gatuno! Isso só faria sentido se ele tivesse roubado uns milhões e tivesse agora de os devolver ao dono. Mas qual quê! Aquilo parece que nem sequer tinha um dono. Porquê? Porque tinha muitos e estão todos nas mesmas condições: nenhum deles é malandro nem gatuno.

Ora, assim sendo, nem sei por que razão se vai perder tempo a caminho do tribunal, por tempo indeterminado, a menos que se queira condenar o estado por permitir que andem a incomodar tão respeitáveis criaturas, perdão pela minha insolência, tão respeitáveis dignitários de altos cargos.

Tão altos, que não há ninguém, nem sequer o juiz, por mais alto que seja, que tenha o direito, muito menos o atrevimento, de lhes fazer perder tempo com coisas destas. Sim, porque é a única coisa que eles perdem no meio disto tudo. Que ninguém pense que eles vão perder dignidade, até porque nunca a tiveram.

Que ninguém pense que eles vão perder milhões, porque nunca os ganharam, mesmo considerando que lhes podem ter mudado o local de repouso. Sim porque os milhões também dormem e, no caso, apenas foram bruscamente acordados para mudarem de cama. Mas isso não é crime. É um sono interrompido para passar a ser um sonho realizado.

A verdade é que tudo isso, de tão corriqueiro que é, nem merece a atenção de mais que meia dúzia de curiosos passivos e desinteressados, que estão quase tão calados como os antigos e originais donos dos milhões que viram quase a voar, mas que logo lhes pousaram nas mãos, através da protectora asa do estado.

Portanto, isto agora já não interessa nada. Já não há ninguém a reclamar nada, já não há cartazes contra gatunos, ladrões e malandros, já não há manifestantes em fúria logo, também não há jornais, rádios, televisões a bater no ceguinho que, aqui, declaradamente, não há, pois está visto que anda tudo com os olhos muito bem abertos.

Felizes, muito felizes, estão aqueles, muitos, que se amanharam, e nem sequer têm de andar a perder tempo nas idas e voltas ao tribunal. Os amigos são para as ocasiões. Amigos, amigos, mas os negócios nunca estão à parte.

Quanto aos incomodados, coitados, só têm de ter a maçada de ir umas tantas vezes ao tribunal. Mas, paciência! Logo dirão: Vou ali, já volto!