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afonsonunes

afonsonunes

18 Dez, 2010

Todos para as obras

O país precisa mesmo de entrar em obras urgentes e é bem visível que nada escapa a essa necessidade premente. Mão-de-obra há muita, mas falta muita massa cinzenta para a planear e, sobretudo, para a executar de harmonia com as necessidades. Em contrapartida, temos muitos gabarolas que dizem que sabem tudo, e que sabem fazer de tudo.

O governo prepara-se para mobilizar os que não querem fazer nada, quer eles saibam ou não, para as obras de construção civil urbana. Como esse não é o meu caso, estou-me nas tintas para a ordem e para o resultado que ela possa vir a ter. Acho bem que só obedeça quem quer, desde que o dinheiro dos meus impostos não lhes seja metido nas mãos.

Todavia, há obras muito mais importantes que podem e devem ocupar gente muito mais importante, sobre as quais não se ouve o mais pequeno ruído. E essas sim, modificariam o país, com muito mais abrangência que as fachadas dos edifícios que estão quase a cair, ou mesmo daqueles que já estão feitos em montes de lixo.

Portanto, convinha mobilizar outros obreiros, entre aqueles que ainda não mostraram o que valem, em substituição dos que já estão cansados de tanto apregoarem como obra feita, a obra que ainda está por fazer. Quanto aos que ainda não mostraram o que valem, convém criar um crivo por onde não passem os que só mostram ter conversa, e muito limitada.

No entanto, há obras para todos. Em última análise, há a tal reconstrução urbana. Hoje, até já se pode trabalhar de luvas calçadas, o que alivia um pouco a dor nas mãos, a formação de calos e os estragos nas unhas provocados pelo cimento, que custa a tirar debaixo delas, se não forem lavadas de imediato.

Em contrapartida, deixa-se para trás aqueles gabinetes ricamente decorados, cheios de sofás com moleza a mais, repletos de fumo de charutos caros ou cachimbos viciados, onde as conversas fedem e as ideias se afundam nos meandros da politiquice que nem faz obras, nem deixa em paz quem as quer fazer e, sobretudo, mandar fazer.

É lógico que quem tem por missão, ou a obra que lhe compete, é mandar outros fazer as suas próprias obras, tem de cumprir e obrigar a cumprir, senão lá se vão todas as obras, como tem acontecido até aqui. No dia da posse de cada um, do mais alto ao mais baixo, ouvimos um rol infindo de obras que vão arrancar de imediato.

São assim os discursos no início dos mandatos presidenciais, já para não falar nas campanhas que os precedem. Aí temos a que decorre agora, com um dizer que fez tudo certinho e direitinho, enquanto os outros arranjam pontos sobre pontos, para coser os buracos que dizem ter descoberto no passado.

Por um lado, anunciam obras que não lhes competem. Depois, sacodem a água do capote, invocando as competências do governo. Logo a seguir culpam o governo de ter feito obras que não devia, ou que as fez à revelia do conhecimento presidencial. Haja paciência para obras destas, nas mãos de obreiros destes.

São assim os governantes que no acto de posse até garantem fazer as obras que não sabem se lhas deixam fazer, ou se têm meios para as fazer, ou ainda se os tempos não alteram as condições de execução. Também estes se esquecem de que, trabalhar nas suas obras, implica olhar para cima e à sua volta, medindo bem se as obras não caem antes de começadas.

E é assim por aí abaixo, com altos e baixos cargos. Lembro-me de há muito ter manifestado num destes escritos, a esperança de que a nomeação de uma senhora procuradora poder vir a ser comparada, à escala nacional, claro, a um senhor da justiça espanhola, chamado Baltazar Garzón. A mim, que sou meio cegueta, parece-me que até hoje, de obra, zero.

Mas, mesmo os que vêem tanto como eu, topam por todas as direcções-gerais, repartições, empresas e profissões de todo o género, tal como políticos de todos os quadrantes, muitos zeros que só contribuem para a obra negativa que o país constrói todos os dias.

Só há uma conclusão possível que contribua para remediar estes males. São as obras. As obras que terão de receber os obreiros adequados e requalificar todos os obreiros que são verbos de encher nos lugares ou cargos onde nada renderam, nem nunca virão a render. Sejam quais forem os lugares ou os cargos. Sem excepção.

Mas, que ninguém fique fora das muitas e muito diversificadas obras de que o país precisa. A menos que queiram viver apenas do ar que respiram.