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afonsonunes

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20 Dez, 2010

'O algarviu'

 

Nascer lá, crescer lá e fugir de lá, deve ter sido a sina de muitos algarvios que não se conformaram com aquela estreita faixa litoral, ainda por cima entalados entre arribas enormes e serranias de meter medo a quem precisa de ver muita gente junta, para desenvolver a teoria de que aí, alguns, têm muitas possibilidades se safar.

O algarvio que vou meter nestas linhas acabou mesmo por se desenrascar, depois de se aventurar numa viagem de algumas centenas de quilómetros, de carrinho novo, com final feliz, ao verificar no destino, uma praia quase tão bela como a sua Quarteira, que o nível do óleo do veículo estava na mesma como quando partira.

Satisfeito, naturalmente, entrou num local onde havia muita gente ávida de emoções fortes e novidades fabricadas ali mesmo, em directo e ao vivo. O meu algarvio, sorridente, desde o limiar dos portões, até ao seu lugar numa das filas da frente, contou o sucesso da sua viagem graças ao desempenho excepcional da sua viatura.

De boca em boca, esse sucesso percorreu rapidamente todo o recinto e, como que por magia, muitos dos olhares se iam concentrando na pessoa do meu algarvio sorridente e feliz, meio encavacado devido à sua modéstia, meio desconfiado, pela rapidez do reconhecimento da eficácia do seu carrinho e meio suado pelo calor que já adivinhava que viria a seguir.

E veio mesmo, depois de ligeiro perpassar de suores frios, um calor abrasador arrasou o recinto, de tal forma que o carrinho teria gripado, se não tivesse ficado lá fora. Mas, no final, condutor e veículo estavam tão assombrados que já não voltaram ao Algarve. Lisboa e as multidões esperavam ansiosamente por eles. Adeus praias do sul, adeus praia do centro.

Hoje, conheço o ‘algardisse’ que recorda com orgulho tudo o que disse desde que saiu do Algarve, nomeadamente, que um algarvio é, como todos os portugueses estão fartos de saber, um homem feliz pelas suas origens, um lutador muito calmo que nunca luta com as armas dos seus adversários, porque tem as suas, que são muito melhores.

E a principal, a mais importante de todas elas, é a sua seriedade, mais sério que todos os ‘algarsérios’ , não desfazendo, porque nunca quis nada que não fosse seu, deixando isso a cargo de alguns dos seus melhores amigos. Que, felizmente, lá conseguiu que eles saíssem da pobreza, essa porque tanto lutou.

O nosso agora lisboeta, bem pode orgulhar-se de ser visto por muita gente como o ‘algarescreve’, ou não tivesse ele escrito muito sobre a sua especialidade, as contas, que ele já referiu, e muito bem, ter ensinado a grandes estadistas da estranja que lhe pediram encarecidamente, uma mãozinha de auxílio.

Mas, acima de tudo, ele é, sem dúvida, o maior ‘algarviu’ de todos os tempos. Ou não soubessem todos os portugueses as misérias que ele já viu. Por todo o Algarve, certamente, mas também no país inteiro. Está tudo dito, escrito e falado nos seus livros, nos seus discursos de subida e nas conversas que teve com a família.

Aliás, logo que subiu do Algarve cá para cima, teve o cuidado, muito cuidado, todo o cuidado, aliás, de recomendar aos seus colegas políticos, que se lembrassem de tudo o que ele já tinha visto, lido, escrito, falado, para que todos fizessem tudo para resolver os problemas que ele tão bem conhecia e melhor tinha denunciado.

Portanto, um ‘algarviu’ assim, não volta a aparecer no país, nem no Algarve, nem no Minho que, neste caso, seria um ‘minhoviu’. É um privilégio para todos os portugueses saberem que já alguém viu aquilo que eles, míopes, muito míopes, não conseguem ver que está tudo por resolver.   

Certamente, porque quem já viu tudo, está à espera que seja o povo a resolver.