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afonsonunes

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Nos minúsculos pormenores se descobrem os grandes pormaiores. Eu, moi, je, considero-me uma pessoa séria, sem ter a petulância, a arrogância, o desplante e a desfaçatez de garantir que não há ninguém mais sério que eu. Quanto mais não fosse, porque, hipocritamente, até poderia admitir que o nosso presidente é a única exceção.

As exceções não são o meu forte, mas declaro solenemente que algumas me deixam a sorrir por baixo do bigode que não tenho. Isto para dizer que quem nasceu apenas uma vez, como eu, tem de se colocar ao meu lado e sujeitar-se ao teste do algodão, para confirmar quem fica mais limpo. Eu, ou ele.

Agora, imagine-se quem tem a prosápia, o desplante, o fingimento, a hipocrisia e o descaramento de se comparar a quem nasceu duas vezes. Por mim, só consigo imaginar esta situação, se alguém se propuser ser duplamente hipócrita para se colocar ao lado de quem nasceu duas vezes.

Repito que eu só nasci uma vez, não me considero minimamente hipócrita, nem tão pouco, o homem, o sujeito, o indivíduo, o sábio, o conselheiro ou o pai da humanidade, para ser o mais sério dos terráqueos que só nascem uma vez. Quanto aos que já conseguiram nascer duas vezes, bem, digam-me lá onde estão eles.

Mas, eu sou apenas o mais simples dos filhos dessa humanidade que luta e sofre por ver um mundo melhor, despido de roupagens que não passam de fogo de vista em tempo de festa, preferindo olhar para a realidade dos trezentos e tal dias de aperto do cinto e não embriagar-me nos restantes dias de festa para tranquilizar a consciência.

É mentira! Garanto eu, que alguma vez me tenham visto com a boca na botija, porque eu, moi, je, sou um amigo incontestado da botija da água quente que a minha Maria coloca na cama para me aquecer os pés. Depois, ela apenas tem que juntar os dela aos meus e fica com os pés quentinhos como eu.

Assim, com estas provas iniludíveis, ninguém pode dizer que é mais sério do que eu, tal como ninguém, que eu saiba, é capaz de garantir que já nasceu duas vezes, para contrariar a minha tese de que sou o mais sério do mundo. Até porque a seriedade não se mede quando se está no meio de uma qualquer campanha suja.

Isso da campanha suja não é comigo, como é óbvio, pois isso apenas diz respeito aos políticos e eu, claro, não sou político. Sou apenas, e simplesmente, o controlador dos políticos, o exemplo dos políticos, a referência dos políticos, o sujeito que está acima de todos eles e tudo o mais logo, acima de todas as suspeitas, mesmo daquelas que eu julgo que são mentiras.

Sim, porque eu gosto muito de julgar, e isso é bom, mesmo muito bom, num país onde quem devia julgar não julga, porque passa o tempo a julgar o que não deve. E os meus julgamentos têm dado ótimos resultados, ou não fosse a táctica do cala-te boca quando é a doer, a solução ideal, tal como o envio de recados é a melhor forma de sorrir nos bons momentos e de calar os outros quando se teme que eles queiram falar.  

E ainda está para nascer quem tenha mais experiência que eu. Mesmo aos que pensam que já nasceram duas vezes, posso seguramente aconselhá-los a verificar com cuidado a sua certidão de óbito, certificando-se de quantas vezes já morreram antes. Sim, porque só nasce duas vezes quem já tenha morrido uma vez.

Porém, tendo em conta que é de mortos que reza a história, daqui presto a minha especial e sentida homenagem a todos aqueles que morreram sem um emprego, que nunca passaram de pequenos e médios trabalhadores, que nunca tiveram mais que uma reforma e pequena, bem como todos os micro investidores como eu. Tudo como eu.

Isto é que é estar a favor dos pobres e desprotegidos e não estar para aqui e para ali, a dizer que eu sou isto e aquilo. Coisas de que eu não quero dizer aquilo mais isto, porque isso não interessa nada. Depois, toda a gente sabe que eu não sou o outro, portanto voltem-se para o outro lado, como têm feito, que por aí é que vão bem.

Aliás, os portugueses sabem que ainda está para nascer, quem o fizer pela segunda vez. A propósito, o Menino Jesus nasce todos os anos, na próxima noite. É por isso que eu, mais que ninguém, como só eu sei dizer, UM SANTO NATAL!