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afonsonunes

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29 Dez, 2010

O nosso banco

 

Em teoria um banco é de todos aqueles que lá meteram o seu dinheiro pois, sem ele, dinheiro, não havia banco nenhum. Enquanto esse banco se governa com o dinheiro dos seus depositantes e levantadores, tudo bem, a vida é deles, o negócio é deles e ninguém tem nada que se meter, desde que sejam cumpridas as leis do país.

Até pode fazer ricos e pobres ao mesmo tempo, até pode criar ilusões e desenganos àqueles que resolveram entrar nele, e até pode fazer aquelas trafulhices que toda a gente sabe que existem, menos quem as devia controlar. Mas, atenção, tudo tem de ser feito debaixo da alçada da lei, senão, devia acontecer alguma coisa.

Estamos fartos de saber que não acontece nada e a prova disso são os balúrdios que voam do banco para os bolsos de muita gente, sob as mais diversas ilegalidades que, até as pessoas beneficiadas e ditas muito sérias e honestas, consideram que sacar o mais que puderem, de qualquer maneira, é um direito que lhes assiste.

Ainda se pode aceitar esta teoria do venha a nós, se essas pessoas são fraquinhas, muito fraquinhas mesmo, na arte de lidar com números, isto é, nas pessoas que não sabem fazer contas. Essas, é natural que não conheçam as consequências do que acontece quando se tira mais do pote, do que aquilo que entra nele.

Agora, quando essas pessoas, fortes em contas, que sabem tudo sobre dinheiro e lucro, que também sabem muito, melhor, tudo mesmo, sobre prejuízos, quando essas pessoas entram no jogo de encher os bolsos em pouco tempo, sabem perfeitamente que alguém está a perder o que elas estão a ganhar. Não são, com certeza, anjinhos inocentes.

Quando um banco em situação de falência é nacionalizado, deixa de ser apenas dos seus clientes, para passar a ser de todos os contribuintes. Porque o dinheiro que o estado lá meteu para pagar os calotes, veio exactamente dos bolsos de quem nada tinha a ver com aquilo, nem nunca de lá recebeu um cêntimo.

Logo, qualquer contribuinte tem o direito de se sentir lesado e de sentir que houve alguém que o lesou, material e moralmente, por ter contribuído para essa situação. Logo, qualquer contribuinte tem o direito de se sentir ofendido com tantas manifestações de inocência, de seriedade e de honestidade de quem tem em seu poder o que outros tiveram de pagar.

Agora que o banco é nosso, é uma propriedade tão incómoda que apenas nos dá o direito de pagarmos os prejuízos que outros fizeram, transformando-os em lucros para eles. Como estamos num país à beira da ruína por causa da vigarice e dos vigaristas, não admira que isto seja uma realidade.

Esta maneira de fazer contas, estou certo que não é ensinada em nenhuma universidade do mundo, nem mesmo daquelas que dão cursos aos sábados e diplomas aos domingos. Mas há por aí muitos cursados que têm esta especialização contabilística. E com ela têm vivido e convivido com toda a tranquilidade e honestidade.

Sem dúvida, também, com muito sucesso e proveito, ou não houvesse otários como eu, mesmo forçado, a esvaziar os meus bolsos para manter cheios e intocáveis os de outros. Tudo porque o banco que era apenas deles passou também a ser meu. Passou a ser o nosso banco.