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afonsonunes

afonsonunes

02 Jan, 2011

Choninhas

 

Desde há muito tempo que eu sei o que é intolerável neste país de intolerantes, até porque não me considero incluído no lote deles. Intoleráveis são, antes de mais ninguém, os componentes de uma categoria de cidadãos a que eu daria a designação de choninhas, porque apenas os imagino a mostrar a sua insignificância e inutilidade.

Pobres, muito mais pobres, pelo menos em termos de dignidade, são os choninhas que, sendo ricos, pelo menos nos sinais exteriores, não se calam com a conversa requentada de querer combater a pobreza com recados, não se sabe bem a quem mas, que tudo indica, seriam uns bons auto recados, tendo em conta o seu passado que nos iluminou o caminho rumo a essa pobreza intolerável.

Os choninhas que todos os dias estão preocupados, muito preocupados, com os seiscentos mil desempregados, ainda não demonstraram que são capazes de criar um único posto de trabalho, nem mesmo nos seus palácios dourados, para onde podiam contratar alguém para que houvesse mais transparência nos vitrais, por causa da húmida opacidade que os ataca frequentemente.

Já que os choninhas não são propensos a fazer o que propalam, ao menos podiam dizer aos outros, àqueles a quem mandam muitos recados, como é que eles podem fazer-lhe a vontade, que é conseguir combater esse flagelo que está para durar mas, mesmo assim, alguém tem a obrigação de arranjar maneira de acabar com ele já.

Sei perfeitamente que posso esperar tudo de choninhas que sabem exaustivamente tudo o que está mal. Também sei que ser choninhas não é coisa difícil, mas não se pense que está ao alcance de quem o quer ser. Ser choninhas é um privilégio que só pode vir de uma base constituída por muitos outros mini choninhas que apostam tudo no líder.

O líder dos choninhas é especialista em discursos e palestras que só são devidamente apreciados pelos seus seguidores choninhas, ou não houvesse uma linguagem própria no mundo, melhor, na comunidade choninhas. Fala-me do que sabes que não fazes, para que os que não são choninhas sejam obrigados a fazer.

O ano terminou com muita ‘choninhice’, sempre em fase crescente, porque o país está, e continua a estar, a curtir uma de se ver no meio de choninhas em festa antecipada, os quais, não vêem, nem sequer a longo prazo, saída para nada, mas exigem remédio para tudo, já. Espero bem que recuperem a vista depressa para não me tramarem por arrasto.     

E este novo ano começou tal qual o outro terminou. As mesmas palavras, os mesmos gestos, a mesma altivez no pescoço elevado, para nos mostrar que se não pode pensar sequer, que os mesmos choninhas vão ser menos agressivos para com o intolerável, e talvez até mais tolerantes para com os anti-choninhas

Desde os últimos dias do ano que findou e nestes dois do novo, a palavra intolerável anda às voltas na minha cabeça, como se ela fosse a pedra de toque de uma outra volta da dança prestes a rodopiar pelo país todo. Prevê-se que seja uma primeira volta muito chata, com muita ‘choninhice’ repetida até à exaustão.

Mas, o que é intolerável, é haver choninhas que não conseguiram dar a volta a isto, nem admitem que apareça alguém a ter direito à sua volta de denúncia da intolerância. Que cada um dê a sua volta como quiser e por onde quiser, desde que respeite as voltas dos outros. Porque tudo indica que não haverá uma segunda volta para ninguém, pois já bem basta o intolerável que se está a passar na primeira.

Por mim, estou ansioso por ver a graça e ouvir o ruído de uma ‘carreta’ negra como breu, a servir de carro vassoura da volta em que os choninhas sairão com a camisola amarela. Já sabemos, pois, com o que podemos contar nas voltas do novo ano. Muita ‘choninhice’ e choninhas a querer unir-nos à volta dela.