Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

 

Está finalmente a gerar-se um movimento de solidariedade à volta das vítimas de uma campanha de intoxicação muito maior que qualquer outra já alguma vez vista neste país, onde nem é costume haver campanhas sujas nem desonestas que atinjam gente acusada de se abotoar com uns milhares mais ou menos largos vindos do além.

É uma idiotice falar-se de algo que já passou há quase dez anos, com gente que só pode sentir à sua volta um grande movimento de repúdio contra verdades que não interessam nada agora, no presente, merecendo sim, uma onda de solidariedade, porque os seus heróis de cabeça levantada são referências de honestidade para o futuro. Palavrinha que estou a falar sério.

A intoxicação constitui um pecado mortal que não se pode cometer de qualquer maneira. Tem de saber-se perfeitamente quem se pretende pôr à frente do foco intoxicante, senão lá vai parar ao sítio errado, que até pode ser um sítio altamente incontaminável. Imagine-se como estou intoxicado de ouvir falar em produtos tóxicos em bancos.

Mas, atenção, como tudo isto é passado, daqueles passados que não se discutem, só tenho que sentir-me lisonjeado por ter tido o privilégio de contribuir para a felicidade dos tais outros. Sim, porque não tenho dúvidas de que foram todos muito felizes, até porque nunca ninguém lhes disse que muita gente tinha tido vómitos.

Até eu já me sinto com vontade de vomitar, só de saber que tenho umas economias num depósito a prazo no banco, que me paga, a mim, à volta de um e meio por cento de juros. Vim a saber agora que o pai desse mesmo banco pagou a outros depositantes, uma enormidade de porcentos, ou ainda mais que isso. Tudo mais coisa menos coisa. E não me avisaram pois, assim, também eu queria.

Se a coisa rendeu assim para depositantes individuais, imagino eu quanto é que a coisa rendeu àqueles que só retiraram, sem nada terem depositado. Aí, não foi percentagem de nada com certeza, mas antes ir ao monte e tirar ao braçado. Pergunto a mim mesmo porque razão, estes patriotas limpos, sérios e honestos não depositaram o seu dinheiro nos certificados de aforro, para ajudar o país.

Vómito foi uma coisa que eles nunca tiveram com o conhecimento das náuseas que provocaram, dos intoxicados que sempre ignoraram, da miséria de que sempre fugiram, dos desprotegidos que nunca conheceram, dos amigos que sempre defenderam, no meio da podre abastança em que sempre viveram.

É evidente que sempre viveram bem acompanhados, pois é bem conhecida a regra que nos ensina que venceremos tanto melhor, quanto maior for o grupo de amigos em que estejamos integrados. Amigos fortes, obviamente, se possível, fortes nas matérias em que nós sejamos mais fracos.

Eu, por exemplo, não percebo patavina de negócios. Se arranjar um amigo que seja especialista nessa matéria, bem posso ir pensando em pedir-lhe ajuda, mas também numa prenda especial para o compensar da sua simpatia e da sua colaboração prestimosa. Se essa prenda for um negócio à minha maneira, então, combina o coiso com as calças.

Para mim, sujos e desonestos, são todos aqueles que não concordam com a minha limpeza e a minha honestidade, que até pode ser igual ou superior à deles, mas que tem o aval da minha palavra, de que ninguém pode duvidar, e da minha experiência, de que ninguém pode dizer que sou useiro e vezeiro nestas coisas. 

Portanto, nada de recriminações a estes impolutos portugueses a quem o país muito deve, que mais não seja para não fazer esquecer outras campanhas muito limpas, iguais a todas aquelas que o país conhece e conheceu nos dez anos passados.

Porém, quem puder ou não quiser entrar nessas manifestações de solidariedade por questões que se prendam com incompreensíveis problemas de consciência, resta-lhes a alternativa, também ela generosa e humanista, que é pensarem em voz alta nos valores do perdão e da justiça divina.

Portanto, perdoai-lhes, senhores, todo o mal que vos fizeram.