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afonsonunes

afonsonunes

02 Out, 2008

Tento na língua

 

 
 
Já lá vai o tempo em que era preciso ter muito cuidadinho quando se punha a língua a passear pela vida alheia, sobretudo pela vida de certas personalidades mais ou menos importantes, muito ciosas da sua vida intocável, ainda que poucas vezes irrepreensível. Falava-se então em respeito e falta de respeito, mas a verdade é que havia muito daquilo que ficou na memória colectiva como a lei da rolha.
Como tudo na vida tem a sua época, temos agora a possibilidade de pôr a língua a passear onde nos apetece sem que alguém se preocupe com isso, mesmo aqueles que teriam motivo para as morder com raiva. Contudo, nem pensam nisso, pois apenas veriam os seus males agravados, optando pelo silêncio e esperando que a onda passe.
Porém, como em tudo na vida, há sempre aquelas excepções que por vezes nos deixam de boca aberta, para não dizer que ferem estupidamente a mais que compreensível lógica da coerência. Para ilustrar esta afirmação basta ir ao encontro de dois exemplos bem na berra da nossa sociedade, mediatizados por excelentes aproveitadores de polémicas de capoeira.
Vamos primeiro à política, ou não fosse ela um brinquedo de estimação de muita gente. Política que, além da brincadeira, ainda dá a comida a muitos brincalhões. Ora, é bem evidente que todos os dias há quem se divirta, mesmo espumando abundantemente pela boca, ao lançar ofensas pessoais, pelas formas mais diversas, a quem está a cumprir legitimamente as mais elevadas funções do país. Qualquer tentativa de meter na ordem os malcriados, seria considerado um acto de ofensa às liberdades individuais.
Contudo, o maior agressor nesta matéria, no seu reino do Atlântico, não permite a mais leve crítica à sua actuação, recorrendo frequentemente aos tribunais, para ser indemnizado por ofensas à honra que nunca teve para com os outros. É o que se chama um homem honrado.
Vamos agora ao futebol, o campo onde se joga muita política. Também no reino da bola há dirigentes que podem lançar as mais torpes atoardas em todas as direcções, embora com alvos seleccionados, sem que os órgãos máximos se manifestem minimamente contra tais práticas que destroem a credibilidade da mais popular das modalidades desportivas. Ao contrário, se forem outros dirigentes a levantar a sua voz contra a impunidade de quem tudo falseia ou tenta falsear, é certo que terá processos disciplinares em cima e ameaças de processos em tribunal. E aqui ninguém está no meio do Atlântico, mas parece que há alguém que sente viver numa ilha de privilégios.
Na política e no futebol, a credibilidade é o segredo do sucesso e a alma do negócio que anda por ali misturado, por muito que se queira fazer ver o contrário. Mas, ao menos, que seja um negócio sério.
Porém, antes de mais nada, haja tento na língua para todos os que pretendem imitar as víboras.