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afonsonunes

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11 Jan, 2011

O pião das nicas

 

O jogo do pião terá caído em desuso nas escolas por causa da falta de guita dos pais dos alunos, coisa normalíssima numa época de crise que serve para todas as gracinhas de bom e de mau gosto. Ora sem guita não é possível lançar o pião, por mais jeitinho que se tenha para essa modalidade de brincadeira juvenil.

Não sei a que propósito me lembrei agora de um bom atirador ou lançador do pião nos seus tempos de menino mimado, que descarregava os seus maus humores no pião das nicas, aquele pião que não tinha mesmo guita nenhuma, por isso, parado no terreiro, levava as nicadas dos outros, em constante agressão à sua inactividade.

Sabe-se agora que um bom lançador do pião dos tempos da antiga primária, era um ás a enrolar a guita, demonstrando ser portador de uma inteligência que o poria a caminho da notoriedade e do sucesso logo que concluísse os estudos. O ódio de estimação ao pião das nicas era garantia de que a luta pela vida seria sempre assim.

Um pião com guita contra um pião sem guita. Um lançador de pião cheio de força e vivacidade, contra um pião abandonado pelo dono na poeira do recreio, sujeitando-o à humilhação de se tornar no alvo de todas as agressões por parte dos seus adversários sem consciência de classe pioneira, com mais ou menos guita.

Sempre a guita a dominar todos os jogos, incluindo os de poder, pois ela, uma vez dominada nos tempos do pião, jamais descolaria do seu exímio lançador. Estou bem convencido de que o país conhece hoje o melhor lançador de pião dos seus tempos de menino bom e generoso, que até, já então, gostava de ir à praia porque também tinha guita para isso.

Mas, o tempo passou, o pião ficou por lá e o menino mimado e com guita, foi em perseguição de outro sonho, sempre com a guita no pensamento e o espírito de competição a guiar-lhe os passos, que não podiam deixar de passar por se entregar nas mãos de amigos que já sabiam como se competia no mundo da guita.

Durante muitos anos os negócios correram normalmente, como correm, de um modo geral, a gente séria e honesta que se impõe nesse mundo de guita comprida, através de uma linguagem delicodoce que dá estatuto, dá respeito e dá amigos em cadeia sempre crescente, aquilo a que também já ouvi chamar teia.

Num mundo onde o pião ficou fora de jogo, os campeões de outrora nunca vão esquecer as nicas que provocaram no das ditas, deixando-o esfacelado, de bojo irregular e picado, tal como fazem agora na luta pela supremacia da guita que apenas repartem com os fiéis e inseparáveis amigos do peito.

Porém, há sempre um dia, uma hora, ou uns escassos minutos, em que o jogo se descobre, por artes de algum malandreco, e não tardou que o herói do lançamento do pião, o algoz do pião das nicas, acabasse por se ver no centro de todos os atiradores, ou lançadores, que fizeram dele uma nova versão do pião das nicas.

Obviamente que foi uma grande surpresa. Não é todos os dias que alguém passa de herói das nicas, a grande vítima das nicadas de todos os piões. É assim o mundo da guita.