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afonsonunes

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Ou muito me engano, ou isto é um assunto bastante sensível, ao ponto de ainda estar a reconsiderar se me devo aventurar na continuação desta tarefa. Falar da virgindade, de uma qualquer virgindade, requer conhecimentos que eu não tenho. Mas isso não me preocupa nada, porque não sou o único a falar do que não sabe.

Sei que esta coisa de falar da língua pode provocar muitos e perigosos desvios de percurso, o que, sinceramente, também não me preocupa minimamente, já que os percursos são como os pensamentos, vão sempre dar aonde nós queremos. E quando nós queremos lá chegar, aí parou. Chegamos lá mesmo, nem que seja ao sítio errado.

Agora, tenho a noção exacta de que falar da virgindade na língua, pode levar a pensar que se trata de quem não tem a faculdade da fala, porque quem fala tem língua e se a língua mexe e fala, então, não há dúvida de que tem actividade e, se tem actividade, não é virgem com certeza. Ora, assim sendo, não é por aí que tenho de seguir.

Tenho, porém, a sensação de que há gente que utiliza a língua com tal suavidade e aparente bom senso, que nos quer fazer crer que a sua língua está mesmo virgem. Gente que não diz uma simples palavrinha que possa molestar alguém, para se não dizer que tem a língua suja, logo, usada, caso em que, para mim, já não estaria virgem.

O mesmo raciocínio se aplica a quem anda a meter a língua onde não é chamado, o que pode constituir invasão de coisa privada, que pode ser uma simples conversa que não lhes diz respeito, ou o exercício de uma actividade com características muito diversas e de contornos muito pessoais. Em qualquer caso serão línguas que já perderam a virgindade.

Não admira pois que, volta não volta, lá nos aparecem pessoas com um paleio que nos deixa boquiabertos, tanto em relação aos assuntos, como em relação à linguagem que utilizam para exprimir o que lhes vai lá dentro. Se a virgindade fosse pureza, como já tenho ouvido dizer, estas pessoas eram virgens puríssimas.

Porém, se as acompanharmos de perto e com muita atenção, verificaremos que, quando acossadas por qualquer motivo que as faça sair da linha, mostram que, afinal, não têm aquela virgindade na língua que, normalmente, quando tudo vai bem, fazem questão de mostrar através de sorrisos mais ou menos abertos.

E, se sair uma daquelas gargalhadas artificiais, daquelas que pretendem mostrar virgindade até lá mais para baixo, então fica tudo mais que a descoberto porque, virgem não é quem diz que o é, mas sim quem o é, porque o quer ser, e é capaz de resistir às tentações que surgem a todo o momento, para que deixe de o ser.

Depois, lá aparece alguém, com virgindade ou sem ela, na língua, claro, a dizer que, pois, coisa e tal, afinal toda a gente julgava que havia ali virgindade indiscutível e sai-se de lá com cada uma, que até a língua fica escamada, quanto mais com a virgindade perdida.

Virgindades destas, no meu país, abundam como se fosse mato. Mas há umas maiores que outras, pois isto aqui não é como nos meninos e nas meninas, em que se é ou não se é, embora haja muita aldrabice e muito simulacro de virgindades de conveniência, mas só porque também já não têm virgindade na língua.

Já estou como o outro que disse que, afinal, não são as virgens que pareciam. Isto a mim, soa-me como se ouvisse uma prostituta afirmar categoricamente que é virgem. Aonde?