Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

17 Jan, 2011

A coelheira

 

Desta vez a ideia não é minha, pois contrariamente ao que acontece habitualmente inspirei-me nas muitas maldades que os meus ouvidos captam daqui e dali, sem que eu possa meter-lhes uma rolha estanque para lhes expurgar a vil tentação de não resistirem a deixar entrar neles, tanta sujeira e tanta desonestidade.

Depois, também não sou caçador daqueles que passam vida de arma na mão à espera de encontrar um coelho distraído para descarregarem nele uma chuvada de chumbo, se não à traição, pelo menos com aquela indignidade e selvajaria de tirar a vida a um pobre animalzinho que não tem meio possível de defesa.

Nem sequer aquele direito de responder aos seus agressores através dos meios que os caçadores furtivos, e alguns dos outros também, utilizam para difundir as suas contra calúnias, ou contra vilezas, que lá vão conseguindo que o que parece não é, e até encher o ambiente de fumo para que, o que é, não pareça.

Por isso e nada mais, sou um acérrimo defensor do coelho, tanto do que vive no meio do mato, mais ou menos isolado, como do que nasce, cresce e morre na inexpugnável coelheira, que é uma espécie de pocilga dos coelhos. Com a diferença de que na coelheira se chafurda muito menos que na pocilga.

Disse atrás que a coelheira é inexpugnável e é bem verdade. Porque a coelha deita cá para fora cada ninhada de coelhos que até faz aflição. Agora imagine-se uma coelha que ainda não tem acabado de parir a ninhada e já está com as patas de um coelho em cima das ancas, assim iniciando o ciclo de mais uma fornada.

Não sei se isto tem alguma coisa a ver com a campanha eleitoral que estamos a atravessar. A verdade é que ela começou com coelhos muito activos, de ninhadas diferentes, com caçadores sedentos do cheiro da pólvora e as armas bem carregadas. Entretanto, aparece uma coelha cheia, ao que dizem da responsabilidade de vários coelhos de se lhe tirar o chapéu.

Tenho de passar a falar em surdina porque isto não se pode dizer. Sim, porque esta não é uma daquelas novelas com início há dez anos. Que até estou admirado porque não foram ainda ressuscitadas para abafar esta coisa em que ninguém acredita, só porque mete coelhos e uma coelha, todos portugueses de gema.

Ai se metesse uns coelhos ingleses a meter o deles na da coelha, então o caso seria bem mais interessante para quem gosta de manter o pessoal bem informado. Assim, isto é tudo uma manobra de diversão, ou não fosse a coelha um petisco só ao alcance do dentinho exclusivo do clube de caçadores que deleita os seus membros na soalheira praia da dita, a matar os seus prazeres gastronómicos e cinegéticos.  

Seguindo o raciocínio de um lobo que não pode ver coelhos, porque prefere carneiros, os caçadores de coelhos não têm alternativa. Não têm classe nem inteligência para deixarem os coelhos em paz, dando preferência à caça grossa. Mas, é muito grossa para os seus talentos. No meu entender, eles até não são capazes de caçar uma lebre porque corre muito, nem uma perdiz, porque voa muito alto.

Não têm alternativa senão atirarem-se à coelheira, onde não faltam coelhos indefesos e uma coelha que não deixa de fabricar ninhadas para entreter os caçadores mais frustrados.