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afonsonunes

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21 Jan, 2011

Olá, xelência!...

 

Estamos mesmo à beirinha de ouvir pela última vez nesta campanha, as suas palavras entusiásticas e vibrantes, os seus apelos ao vil papelinho que há-de guiá-lo à vitória no domingo. Serão as palavras finais do seu hino, o seu grito rouco de levantamento de outras vozes mais sibilinas que o farão imaginariamente pintar o palácio da cor dos seus olhos.

É evidente que no momento em que dou corpo a esta ideia, ainda não sei o nome da xelência, embora vá imaginando já o que me vai sair na rifa, bem como a todos os meus caros concidadãos. Se eu falo numa rifa ninguém vai estranhar que haverá surpresas de todos os tamanhos e feitios no acto de desenrolar os papelinhos. 

Para mim, não vai haver surpresa nenhuma, para mal dos meus pecados, logo, já gastei todos os foguetes que tinha a deitar e, de modo nenhum, me verão a apanhar as canas dos foguetes que outros deitarem. Claro, que alguém as vai apanhar, ou não fosse isso um acto de contrição por um erro de cálculo que logo dá em arrependimento.

Mas, xelência, permito-me sugerir-lhe hoje, sexta-feira, antes do discurso de encerramento da sua campanha, que diga nesse discurso, tudo aquilo que sempre disse que não podia ou não devia dizer. Quem não pode ou não deve, seja lá no que for, não merece ser eleito, seja lá para o que for pois, quem é eleito, tem toda a gente que o elegeu a exigir que diga tudo o que lhe vai na alma, que deve, que tem obrigação de dizer sempre aquilo que prometeu a quem o elegeu.

Já dizia o povo que todo o homem deve sempre falar claro e mijar direito. Xelência, sugiro que faça uma observação muito directa à sua aplicação prática desta máxima popular, coisa que até pode verificar pela sombra e pelo eco. Mas, por favor, xelência, não diga que tem a certeza absoluta de que está dentro do cumprimento, sem primeiro fazer a prova da observação directa.

Estou certo que a xelência, no seu discurso de hoje, não vai assustar mais ninguém. Pelo contrário, vai até mandar um abraço fraterno aos seus parceiros desta lida, bem como a todos os amigos, bons ou maus, não interessa, estejam eles a fazer contas de cabeça no continente, nas ilhas ou mesmo em Cabo Verde ou na Suíça.

Lembre-se, xelência, nem precisava de lho dizer, que o mundo do dinheiro está com os olhos postos no seu discurso, para nos lixar ou para nos pôr a pão e laranjas. Não sei bem qual é a diferença, mas confio plenamente na capacidade da xelência para decifrar enigmas muito piores que este.

Se assim não fosse, era impensável que tanta gente o conhecesse tão bem, que tanta gente lhe dê o papelinho mágico que dá para cinco anos de tranquilidade, cinco anos sem problemas com ninguém, cinco anos de concórdia e ainda mais cinco anos de uma experiência feita de cinco anos de sabedoria.

Tinha muita coisa para lhe dizer, mas também estou plenamente convencido de que a xelência já sabe tudo o que eu lhe queria dizer. Se assim não fosse, certamente que faria todo o sentido que fosse eu a ser eleito ou, no meu impedimento, talvez um dos Coelhos não se importasse de fazer esse sacrifício.

Contudo, tudo deve ser feito para evitar uma tragédia, senão mesmo uma catástrofe se, por um daqueles cataclismos impensáveis, a xelência não fosse chamada ao seu posto. Daí que peça respeitosamente que me permita mais uma ‘sugerência’.

No próximo domingo, xelência, não saia à rua, por nada deste mundo. Lembre-se que há outros à espreita, esperando vê-lo de costas, para se sentarem na sua cadeira. Por favor, não pense que estou a meter-lhe medo. É apenas uma gracinha inofensiva, xelência.