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afonsonunes

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23 Jan, 2011

Bocas de aluguer

 

Espero bem que ninguém fique chocado por trazer este assunto à minha lista de originalidades, a qual nem sempre prima por seguir esse roteiro, devido à concorrência pouco leal de quem se dedica a ‘roteirar’ frequentemente em sentido contrário, pois contribui grandemente para que o meu, tenha menos visitantes do que podia e devia ter.

Alguma concorrência política já descobriu que pode ter bocas de aluguer espalhadas por tudo quanto é sítio onde se escreva, fale, mostre o sorriso ou o ar tramado da desgraça de alguém. Uma boca de aluguer é, nem mais nem menos, como uma barriga de aluguer. Mete-se lá o que se quer e ao fim de nove meses, dá-o cá, que é meu.

Na boca de acolhimento alugada também se mete o que se quer, desde que se pague o aluguer daquela espécie de armazém que até pode armazenar bocas dentro da boca. O alugador, ou inquilino, só tem de estabelecer o programa de libertação do material pelo qual responde. Essa libertação pode ser feita através da voz ou da escrita, conforme os termos do contrato de aluguer.   

A finalidade do dono ou da dona da boca, senhorio ou senhoria, é receber a renda pontualmente dentro dos prazos acordados. Depois, é pôr a boca no trombone e ir despejando a mercadoria que criou a pedido. Pode parecer um trabalho pouco digno mas não é. Cada um safa-se por onde pode, para levar para casa nem que seja um naco de pão duro.

Nem sempre o aluguer da boca constitui um acto de sacrifício. Há quem o faça com aquele prazer de badalar, badalar, até que a língua lhe doa, desde que o badalo sinta o gosto de estar a morder as feridas de alguém que detesta e a lamber as botas do inquilino que lhe paga pontualmente a renda bucal. 

Volta não volta lá oiço dizer que alguém encomendou qualquer coisita para ser lançada no mercado da vida. A encomenda, logo que pronta para ser transaccionada, é depositada na boca de aluguer, após o que será passada para o domínio público pelo senhorio, ou senhoria, bem controlada, bem contada e muito bem representada.

Sim, porque a situação do coitadinho ou da desgraçadinha, não pode deixar de impressionar quem não pensa de imediato. Quem ouve e chora, quem vê e blasfema, quem nunca acredita no poder da representação, quem não consegue aperceber-se de que está a ser embalado num qualquer conto de levantar cabelos a carecas.

Hoje, lá mais para o fim do dia, vamos ter muitos partos bucais que, conscientemente, foram guardados para este dia em que vamos ter mandato novo em titular velho. Velho, não no sentido pejorativo do termo, já que neste mundo pode não haver nada velho, se houver reciclagem a tempo e horas e se soubermos tirar partido de tudo o que é usado.

As bocas de aluguer vão despejar-se porque o tempo vai sofrer uma alteração profunda. Prevê-se um agravamento das condições a regular os contratos das bocas de aluguer, principalmente, no que toca à dimensão do que se mete, ao conteúdo do que se tira e, como não podia deixar de ser, o embaratecimento da gravidez, dado o aumento, sobretudo, da oferta dos senhorios e senhorias.

As bocas, cada vez menos, vão servir para mastigar e engolir. Cada vez mais, vão estar à disposição de quem por elas paga renda.