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afonsonunes

afonsonunes

24 Jan, 2011

Ressaca

 

Há aquelas que se apanham sem esperar e há aquelas que já estavam previstas e, de algum modo, programadas. Ontem, dia vinte e três deste Janeiro contaminado, apanhei uma das maiores da minha vida.

Aquela noite bolorenta e propícia a virar a cara para o lado a todo o momento, era um convite permanente ao enjoo, a ponto de me apetecer meter dois dedos na boca para ver se depois já conseguia digerir, mesmo a muito custo, as imagens da minha enervante televisão.  

Ainda lhe dei dois murros na parte superior para ver se os intervenientes que ela me mostrava, tremiam ou se voltavam para o lado de lá. Qual coisa. Eles estavam indomáveis nos seus desígnios de me querer subornar com a sua conversa embriagadora.

Foi isso mesmo. Uma noite de bebedeira de caixão à cova. De tal maneira que a minha, já só me mostrava grossuras de todos os lados. Eu tinha vontade de ouvir aqueles comentadores, mas qual quê. Tinha mesmo a sensação de que a deles ainda era maior que a minha.

Porém, ainda consegui perceber que um deles conseguiu reaver quinhentos euros de um depósito inicial de dez mil. Apeteceu-me dizer, sem soluçar, muito bem-feita. Mas solucei mesmo, e de que maneira.

É que o depósito em causa foi feito num banco irlandês que, como aconteceu a todos por lá, faliu. Aquilo foi um Rio que quase secou. Mas isso não interessa nada porque os barris de lá continuaram cheios de néctar prontos a produzir valentes bebedeiras.

O mesmo endinheirado revelou ainda que lhe aconteceu quase o mesmo com outro depósito. Este, agora, num banco alemão. Até me parece que deve haver engano no país. A menos que ali, os barris de cerveja tenham ficado alterados.

Mas, mais alterado que ninguém devia estar esse endinheirado investidor em bancos estrangeiros, ao confessar que, ele sim, teria sido um óptimo candidato pois, em lugar de somar grandes lucros nos investimentos, tivera antes grandes prejuízos.

Isto é que é falar. Tudo às claras, não se esconde nada, confessa-se até aquilo que ninguém perguntou. Se toda a gente fosse assim, teria sido uma grande campanha. E eu não teria apanhado uma daquelas.

Ah, já me esquecia de dizer que estes é que são os portugueses amigos do seu país. Tudo o que ganham cá, muito ou pouco, bem ou mal ganho, vão pô-lo lá fora. Mas, repito, ao menos não escondem as suas opções, nem tentam atirar areia para os olhos dos outros.

Por acaso até nem reparei na sua cor política, mas fiquei com a sensação de que não destoava da predominância nessa matéria tão sensível, como é o cacau e os seus movimentos à volta do mundo, através dos grandes negociantes.

Se nessa altura da noite eu já estava com ela, aconteceu que depois, quando começaram a surgir os discursos, comecei a ver duas imagens de cada vez no ecrã da televisão. E, pior ainda, a ouvir tudo o que eles diziam, completamente ao contrário e até a ver ver dois ecrãs.

Os ricos só falavam de pobres. Nunca consegui ouvir os pobres. Se calhar não estavam lá ou, se havia por lá algum, devia estar com uma ainda maior que a minha. Também não consegui ouvir nenhum corrupto, nem nenhum desonesto, confessos. Não era o dia deles.

Porém, o homem dos dois discursos arrasou-me. Se eu já estava de gatas, depois de o ouvir, melhor, depois de o bi ouvir, dei um salto acrobático, sentei-me como deve ser, e fiquei assim, como que regenerado, com uma lucidez total, pronto para mais cinco anos de vida boa.  

Haja alguém que não me engana. Ontem fui para a cama feliz. Dormi que nem um lorpa. Hoje, quando acordei, estava todo partido. Era a ressaca nua e crua. Já decidi que vou substituir o aparelho de televisão.