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afonsonunes

afonsonunes

25 Jan, 2011

Eufóricos

 

Diz-se hoje, que nada vai ser como dantes, depois de há uma semana atrás, em plena campanha, andarem papões a esvoaçar por todo o lado, a assustar aquelas pessoas que andavam a pensar alto, naquilo em que os outros andavam a pensar, mas em silêncio, por causa do perigo das mentiras se transformarem em verdades.

Sinal dos tempos é aquela verdade que demonstrou como um quarto dos portugueses se sente no pódio da cidadania, espetando os dedos na direcção dos restantes três quartos, mostrando-lhes como o rancor e o ódio, são o melhor bálsamo para festejar esse, para eles, facto histórico e fantástico de dimensão estrondosa.

É a loucura da euforia contra a vergonha das palavras reprimidas. É a esperança de que tudo volte atrás, contra a vontade de que tudo avance rapidamente à medida que se vão corrigindo os incidentes de percurso. É a febre do reumático que já não escolhe idades para atacar, contra a força do movimento regenerador a caminho do futuro.

Sente-se muita sede de poder mas não se vislumbra água que possa beber-se. Sente-se muita fome nessa gente cheia de sede, mas apenas se vislumbram ossos para distribuir pelos inquietos e ansiosos eufóricos. Já se olha para o lado vendo quem se perfila para a ocupação das cadeiras que já se imaginam vazias.

Vazios estão os cofres, tal como vazios são os pensamentos daqueles que, na ânsia de correr para eles, os imaginam a encher-se até ao momento de chegarem junto deles. Porque a euforia não se alimenta do vazio. A euforia levanta os braços, abre as mãos para colher mesmo o que não vê e, de imediato, as leva ao bolso até os encher.

Os eufóricos já esqueceram os pobres e os desempregados que tanto os preocuparam nas últimas semanas. Não me surpreendem, já que nunca quiseram que se fizesse nada por eles, logo que isso implicasse a sua activa participação. Lá bem no fundo, os pobres e os desempregados são a melhor fonte de rendimento dos eufóricos mais activos.

Concordam com cortes nos salários, mas não nos seus. Defendem a implementação de facilidades para despedir trabalhadores, mas só pensam no despedimento dos seus. Reclamam por tudo o que é privatização, mas exigem que seja o estado a sustentar toda a privilegiada clientela do privado.

Realmente, há razões para um quarto dos portugueses estarem eufóricos. Eles não querem, nem podem ouvir falar, de empresas que não pagam impostos há muitos anos, senão mesmo desde que existem. Mas exigem que o estado as subsidie, que lhes encha os cofres, de onde acabam por transferir o dinheiro para as contas pessoais que vão lá para fora.

Os eufóricos não falam, nem podem ouvir falar da justiça que não temos, porque seriam eles os primeiros a sentir-lhe a mão pesada se ela existisse. Um simples olhar à nossa volta é bem revelador de que ela se entretém a mexer e remexer em casos onde só o tempo e o dinheiro gastos justificam a sua continuação.

Estes dois aspectos da vida dos eufóricos, que se entretêm a mexer e remexer em outros aspectos, resolveriam os problemas principais do país, caso da pobreza e do desemprego em grande parte, pela viabilidade económica que receberia o seu combate. Com todos os mamões a reclamar continuamente mais mama, nunca sobrará nada para aqueles.

Mas sobrará sempre a conversa dos coitadinhos que não têm os apoios do estado, das criancinhas que não podem ser esquecidas, dos idosos que não podem ser abandonados, dos desempregados que não têm pão para dar aos filhos. Pois bem, deixem-se de ser passivos reclamantes e transformem-se em activos transformadores desta sociedade doente numa sociedade saudável e toda ela com prazer de viver.

Um quarto de eufóricos e três quartos de insatisfeitos, ou mesmo a viver muito mal, não podem fazer um país equilibrado. Se isto é histórico ou fantástico, vou ali já volto…