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afonsonunes

afonsonunes

05 Fev, 2011

Ora, agora sim!

 

O homem sabia tudo, não precisava perguntar nada a ninguém, pelo contrário, ele queria que lhe perguntassem tudo, mesmo antes de não se fazer mesmo nada. O homem tinha um capital de experiência muito longe de ser igualável, ainda que se juntassem dois a dois para se confrontarem com ele.

Há até quem pense que ele depositou esse capital de experiência em várias agências sem sequer perguntar a respectiva taxa em vigor. Nem era preciso, reconhecida como era a sua sabedoria na matéria. Verificou-se depois que não foi o rendimento desse capital que lhe granjeou a fama e a glória de um bom investidor.

Dizem que o saber não ocupa lugar. E é verdade, pois o homem estava tão certo do seu saber que lhe não reservava o mínimo espaço na sua mente cheia de outros notáveis conteúdos. Mesmo fora dela, da mente dele, o sucesso sempre foi a sua arma de combate contra quem o julgava um simples e modesto investidor.

O tempo tudo leva e tudo traz. Apesar dos indiscutíveis sucessos, o homem confessou a si próprio que não bastava saber tudo, saber mais que ninguém, era conveniente mostrar ao mundo que também precisava de ouvir os outros para fazer de conta que aprendia o que já estava farto de saber.

E foi assim que o homem que ensinava tudo a todos, passou a ouvir toda a gente, até os maiorais dos bancos a quem nunca ligava nenhuma, a quem entregava os seus parcos restos não gastos no dia-a-dia, sem querer saber se lhe rendia muito ou pouco. Tudo leva a crer que, ainda assim, continuou a não perguntar nada sobre isso.

O povo diria que este é um homem levado da breca, pois é muito difícil, senão impossível, encontrar alguém por quem esse povo ponha as mãos no lume, por confiar cegamente nas suas providenciais palavras em qualquer circunstância. Nos dias nebulosos que o mundo atravessa, não sei se isso não será milagre suficiente para uma beatificação.

Desde há muito tempo que o homem é um verdadeiro santo milagreiro que pôs toda a gente a sorrir de fartura e de barriguinha bem cheia. Evidentemente que, se isso não se passa hoje em dia é, simplesmente, porque apareceram uns estragadões que conseguiram gastar muito mais que o muito que o homem ganhou.

Ora, agora sim, o homem deixou de pensar apenas em amealhar, para ouvir tudo o que os estragadões têm para lhe ensinar, em termos de gastos, já que lhe passou uma ideia pela cabeça, segundo a qual, só se poupa o que não se é capaz de gastar. Sim, porque o homem chegou à conclusão de que já não é capaz de gastar tudo o que amealhou. 

Daí que tenha muita dificuldade em descobrir uma agência na qual ainda não tenha nada, pois está plenamente convencido de que essa máxima de não colocar todos os ovos no mesmo cesto, é mesmo para cumprir religiosamente, mesmo que o seu autor não tenha lá muito bom gosto em matéria religiosa.

Como as conversas são como as cerejas, o homem tornou-se agora um verdadeiro glutão do paleio, convidando para sua casa tudo quanto sabe gastar muito, convencido de que eles o gastam bem. Ora, é isso mesmo que ele quer ouvir, até porque tem lá para consigo que também receberá uma medalha igual àquelas que está farto de entregar.

Que eu tenha ideia, ainda ninguém recebeu uma medalha, mesmo das pequeninas, por se ter provado que amealhou muito em pouco tempo. Pelo contrário, estou farto de ver muitos e grandes medalhados que, a única proeza que cometeram, foi gastar tudo o que não tinham, mesmo sabendo que não era deles. 

Força, homem, fala com eles, ensina-os a poupar, enquanto vais aprendendo a gastar.