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afonsonunes

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08 Fev, 2011

Maria, hoje é dia!

 

Oh homem, eu estou-me nas tintas para os teus dias e ainda muito mais para as tuas noites. Espero que não seja dia de ficares na cama à espera que as greves acabem, para ires para o trabalho e, podes ficar descansadinho, não sou eu que vou contribuir para perturbar o teu sono pois, a dormir, tu és um ás.

Se julgas que me convences a ir fazer-te companhia, estás muito enganado, pois farta estou eu de te ouvir ressonar durante toda e noite e durante todas as noites. Além disso, eu também estou em greve e nem penses que vais ter serviços mínimos. Aproveita e dorme, dorme muito, já que tu, nem para fazer greve serves.

Dizes que hoje é dia não sei de quê. Se tu fosses um fura greves, eu ainda podia admitir, embora com muitas dúvidas, de que fosses capaz de tentar um ou outro furo, mas qual quê, estou farta de esperar por esse tal dia, o dia em que eu não esteja de greve e tu não estejas a sonhar com o semáforo vermelho na tua frente.

Que eu saiba, hoje também não é dia de ires à bola, já que ontem o teu clube, que não é o meu, obviamente, levou na pandeireta quando havias feito uma festa de arromba só porque julgavas que ia aumentar a vantagem para o meu. Mais uma vez te enganaste e, sei lá, se não é por isso que estás aí a dormir e a ressonar, como se engolisses o apito do árbitro.

‘Penso eu de que’, hoje não é dia de tomares o comprimido para a garganta, senão não tinhas o descaramento de me estares a tentar lembrar do que eu não quero fazer, ainda por cima no dia seguinte à cachola de ontem à noite, que não consigo esquecer, em que não tinhas voz, nem tinhas força para levantar uma gata pelo rabo.

Para mais, já devias saber que eu não sou uma gata qualquer, pois até tenho um certo peso, devido à falta de esforços específicos em que tu nem sequer pensas, provavelmente, com excepção dos dias em que sabes que eu estou de greve, portanto absolutamente inacessível, e tu com essa soneira ressonante que faz lembrar a máquina do comboio a vapor.   

Oh homem, vê se perdes essa mania de sonhar com tudo o que é transportes no dia em que eles estão em greve. Não vais trabalhar porque não tens transporte, depois ficas o dia inteiro na cama à espera de mim. Outra mania que nunca vou perceber. Será que te arrefecem os pés? Olha, põe-te a caminho do emprego, a pé, e tira o sentido do resto.

 Desconfio que queres convencer alguém de que ficas a trabalhar na cama, contando com a minha colaboração. Mas, vê lá se metes na tua cabecinha que eu sei, há muito tempo, que nem ali consegues fazer nada. Além disso, repito, mesmo que conseguisses por milagre do comprimido, eu, Maria, estou de greve e, solenemente, te digo, prontos!...

Logo, hoje não é o dia que tu julgas que é. Nem tão pouco é o dia da minha nega que, aliás, seria perfeitamente legítima, porque se nos transportes não há serviços mínimos, quem sou eu para os cumprir contigo, que nunca soubeste o que era isso, mesmo quando eu ainda esperava, no mínimo, por uma boa vontade de esforço acrescentado.

Não sei se já reparaste que, nem eu sou o governo cá de casa, nem tu és a oposição ao meu desempenho. No entanto, parece que é o que tu queres ser e desejas que eu seja. Tu queres tudo, tu exiges tudo, tu perguntas tudo, mas não sabes nada. Julgas que eu tenho a obrigação de ensinar tudo, de te dar o que é meu e fazer-te companhia na caminha.

Olha lá bem para a minha cara e diz-me se me achas parecida com ele. Sim, eu olho para a tua e sei perfeitamente com quem te pareces. Aliás, é espantoso como tu tens parecenças com eles todos. Tens os olhos do maior, que vêem tudo. Tens a curiosidade mórbida daquele que pergunta tudo, tens o CD riscado do terceiro e o braço esquerdo a abanar como o do quarto.

É por tudo isto que te vejo como um ceguinho, que me rio das tuas perguntas e desejos, que não percebo nada da tua música, nem tão pouco reparo nos movimentos dos teus membros, por mais que tanta fartura da tua oferta me tente impressionar. Porque, eu, Maria, sou teimosa como ele, quase tão esperta como ele e faço greve quando me apetece.

Ora, hoje, não é dia de ir na tua conversa.  

 

 

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