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afonsonunes

afonsonunes

12 Fev, 2011

Venham as hienas

Sinto-me exactamente no meio da savana onde o cheiro a erva é muitas vezes abafado pelo cheiro a sangue quente das vítimas dos raides dos poderosos esfomeados, por entre as manadas dos mansos e pacíficos distraídos que andam a comer a erva, sempre em risco de serem comidos.

Nesta savana dos homens e das mulheres que nela buscam e rebuscam no espaço quase vazio o sustento dos seus, aparecem umas feras sem que ninguém saiba de onde vêm, ou em quem querem ferrar as garras em primeiro lugar. Aqui não cheira a sangue, por enquanto, mas respira-se o bafio da podridão.

Andam todas as feras à volta do banquete esperando que o leão esteja farto e as deixe avançar para raparem os ossos ou as peles que sobraram do repasto. Os abutres descem do ar e as hienas até parece que saem de buracos que se abriram ali mesmo. Da vítima já pouco resta mas por ela já se luta apenas pelos restos.

Não sei se o país está de rastos ou de restos, mas não quero de certeza ser mais uma fera à espera que sobre alguma coisa para mim. O que tenho e o que quero tem de ser conquistado por mim e não caído do céu aos trambolhões, por obra e graça de quem nunca mexeu uma palha, preferindo tirar palha da manjedoura dos outros.

Bem entendido que estas não são hienas vegetarianas. Tão pouco se lançam em perseguições diabólicas das suas presas, certas de que outras feras mais ágeis o farão. Por isso aguardam impacientemente o rescaldo da perseguição agressora e da fuga de quem cai para sempre no campo da morte.

É neste clima de vida ou de morte que se disputa tudo na savana dos leões, dos lobos, das hienas. Ali ao lado está a floresta onde nada nem ninguém se pode sentir seguro, apesar de cada macaco ter o seu galho. Mesmo assim, não deixa de haver umas macacadas que dão para o torto, naquela como nesta floresta que pega com a savana.

Savana, floresta, selva, feras, anda tudo num alvoroço, com macacadas por todos os lados, como se já houvesse apenas uma vítima a ser disputada, sem que ninguém tenha a coragem de se atirar de caras para a cara dela, conquistando a vã glória de ficar para a história, como o alimentador de todas as hienas que esperam pelo seu momento de encher o bucho.

Estas hienas valentes tão depressa avançam com logo recuam, porque lhes falta a certeza de que não serão engolidas por uma qualquer onda, ou horda, reveladoras de que as suas análises sem nexo, não conseguem acertar uma para a caixa. Daí que sucedam aos dias eufóricos de certezas infalíveis, dias em que, logo de seguida, se deixam abater na hesitação e na dúvida de quem tem a lição muito mal preparada.

Como se fala muito por aí em cadáveres, as hienas, além da excitação que não conseguem esconder nem disfarçar, têm a oportunidade de exibir a sua verdadeira vocação devoradora de carne morta, sem o medo de que as vejam fazer aquilo que lhes está na génese.

Que venham, pois, as hienas, que eu já estou cheio de curiosidade para ver o que vem a seguir.