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afonsonunes

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O país está cheio de vítimas de toda a espécie de catástrofes que nos caem em cima diariamente, o que nos conduz à constatação de que já não há um único português verdadeiramente feliz. Pois, estão a pensar naqueles… E eu estou a pensar que nem esses já têm vontade de abrir um modesto sorriso para as câmaras de televisão.
Quanto aos outros, anda por aí uma onda de suspiros e desabafos contagiantes, a ponto de já se encarar a possibilidade de deslocalizar o país para parte incerta, dada a impossibilidade de encontrar por cá as encomendas necessárias e suficientes para a salvação nacional. Ainda não há muito tempo, encomendas eram o que não faltava na nossa praça e completamente disponíveis para todo o serviço.
O país está uma vítima pegada. Calcule-se que se soube agora que um honrado chefe de família teve de emigrar para as vindimas, para ganhar o dinheiro suficiente para pagar os livros do filho que vai entrar agora para a escola. Não fosse a perspicácia de um jornalista como deve ser, lá ficaríamos nós sem conhecer este drama familiar. Uma tragédia inigualável, num país que, segundo fontes próximas do delírio, já deve estar perto de deixar de ter vindimas.
Mas, ainda temos com fartura quem nos diga o que faz o Zé dos Anzóis, o Tó Melancia ou a Joana Salsinha, todos com as suas actividades milenárias em vias de extinção, por falta de apoios para os sachos, para os ancinhos e para as galochas. Estranha-se, porém, que ainda ninguém lhes tenha dito que a sua salvação está em ir para as vindimas, remédio santo para salvar situações verdadeiramente catastróficas.
Se todos encararmos a salvação do país por este prisma, ele não só será viável, como resolverá o problema do coro dos apavorados, dos medrosos e dos desconfiados, que até poderão beber um pouco de sumo das uvas do ano anterior, depois de um dia de trabalho insano nas vindimas salvadoras.
Já é muito velho o slogan de que beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses. Ainda será? Mas, não há dúvida de que solta a língua e faz sorrir.