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afonsonunes

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Com frequência dou comigo a pensar que já não há cá disso faz muito tempo. Mas logo me encolho com um arrepio de todo o tamanho pensando que, se é assim, então eu também não o sou. E pergunto a mim mesmo, cheio de comichões por todo o corpo, como foi possível, eu, ter-me deixado embalar na canção dos que o não são.

Por outro lado, eu não posso fugir à regra. Pois se todos, a começar mesmo lá no cimo e por aí abaixo, ninguém resistiu à vil tentação do vil metal, como é que eu, que não tenho metal quase nenhum, também não escapei à banalidade do vil, mesmo não tendo proveito nenhum. Começo a pensar que devo ser mesmo muito vil com pouco metal.

Pois, gente séria é outra coisa, mas onde está ela é que me faz espécie. E quanto mais olho para cima pior. Até parece que as alturas me fazem vertigens e me provocam um enjoo danado, ao pensar que os considerava tão sérios como eu. Afinal tenho de rectificar o meu pensamento.

É que eu não sou sério mas também não sou vil, ao passo que eles, lá em cima, conseguem convencer-me de que não são tão sérios como pareciam, logo, tenho de concluir que se trata de uma vil seriedade que não resistirá ao teste do aldrabão, perdão, eu queria dizer ao teste do algodão, que é branco, branquinho, puro, a sério.

Pelo contrário, qualquer dia também não há algodão assim, devido aos testes que terão que começar a fazer-se, ou nunca mais isto fica minimamente limpo. O grande problema é quem está em condições de tomar a iniciativa de pegar no algodão, mesmo com o pensamento sempre a fugir para o aldrabão.

Depois, seria de esperar que essa alva e pura matéria-prima começasse a escassear nos mercados devido ao excesso de procura em relação à produção, que não tardaria a diminuir devido ao receio de que o tal teste se generalizasse e chegasse aos próprios produtores. Pior ainda, se chegasse aos tais que estão muito acima deles.  

Está visto que gente séria é outra coisa. Estou exausto de tanto pensar à procura dessa coisa que não descortino onde a encontrar, mas também não vou desistir enquanto não souber quem é mais sério do que eu, quem é tão sério como eu, ou quem é menos sério do que eu. Isto é muito importante, por causa da minha consciência.

A propósito, também vou ver se descubro quem é que ainda tem consciência. Se calhar eu também já não tenho isso. Ando muito confuso com o que vejo e ouço por todo o lado. E é pior ainda, quando a pancadaria alastra, os polícias fogem, o povo se mete em casa a espreitar por detrás das cortinas e, lá fora, aparecem uns gajos porreiros de mangas arregaçadas e braços no ar, a dizer como é, por serem os guardiões de todas as coisas boas.

Ora aí está! Finalmente descobri que ainda há gente séria e, concomitantemente, (eh pá! que raio de termo!) com consciência suficiente para me tranquilizar de que, afinal, está tudo bem. Não precisamos de polícias que só servem para apanhar pancada. Não precisamos daquela gente lá de cima que só serve para nos tentar a fazer o que eles fazem.

Já agora, também não precisamos de leis logo, não precisamos de quem as faz, não precisamos de quem as interpreta e as aplica, nem precisamos de gente séria para nos ensinar a fanar o que podemos, tal como não precisamos de gente que só nos sabe chatear o juízo com a mania da moralidade.

Mas vamos continuar a precisar, e de que maneira, cada vez mais, dos gajos porreiros que estão acima de todos aqueles de que já não precisamos para nada.

Desvendado o mistério das minhas dúvidas, posso reiterar convictamente, que gente séria é outra coisa.