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afonsonunes

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Assim um pouco a talhe de foice hoje deu-me para libertar uns conselhos sem saber para quem, pois não é lá muito fácil encontrar quem esteja disposto a aceitá-los. E eu respeito completamente as disposições alheias, pois estou a ver, mesmo agora, no que dão as teimosias de alguém que quer dispor da vontade dos outros.

Portanto, é melhor substituir o conselho por sugestão, que sempre é mais leve, mais digerível para estômagos azedos e com mais probabilidades de não me caírem em cima, por causa das liberdades individuais. É que hoje, os conselheiros já não têm nada para aconselhar a ninguém, ao passo que os ‘sugestores’ estão a sugestionar na maior.

Então, eu sugiro que todos os talhantes que estiverem desempregados, não devem ser poucos, penso eu, façam uma mega manifestação à porta de uma mercearia fina, daquelas que se vê logo que lá dentro têm boa fêvera, bons bifes e boas facas para os cortar, tão bem afiadas como as suas línguas reclamando que, no mínimo, um talhante consiga entrar.

É realmente uma coisa incompreensível que esteja ali a boa carne a secar nas montras e as facas a criar ferrugem, só porque o merceeiro mor não dá um emprego, ainda que, como habitualmente, o ‘ordenadito’ não lhe faça grande mossa nas contas do fim do dia. Isto porque as contas de qualquer merceeiro não passam do velho papel de embrulho.

É pois, naquele papel pardo que o merceeiro escreve as parcelas com um lápis cuja escrita só se percebe, se ele não se esquecer de ir molhando o respectivo bico na ponta da língua. Estou mesmo a meter água por todos os lados, pois já me ia esquecendo que acabei de dizer que se tratava de uma mercearia fina.      

Nesse caso, talvez o grão merceeiro até possa ter dois talhantes, o que seria óptimo, pois sempre é melhor reduzir o número de desempregados em dois do que num só. Mas espero bem que o sujeito não tenha o descaramento de pagar apenas um salário dividido pelos dois talhantes. Sei lá, destes merceeiros finos pode esperar-se tudo.

Porém, o mais certo é que, tal como o Iva, os talhantes não entrem mesmo da porta para dentro, ou seja, não fiquem mesmo feitos ó bife, com muitas ou poucas palavras de ordem. Nesse caso eu sugeria que os talhantes fossem até à porta de um merceeiro dos velhos tempos, que ainda os há e que são mesmo capazes de dar um emprego a sério. 

Alguém me está a soprar ao ouvido que, mais uma vez estou a meter água. Que não, que não se arranjam talhantes em lado nenhum. Ah, também já não há merceeiros dos antigos? Caramba, como o tempo passa! Como tudo muda de um momento para o outro! Ainda há dias havia tanta gente à procura de um emprego.

Se calhar, ser talhante, não é estar empregado. Nada custa receberem apenas o rendimento da inserção, essa coisa que dizem que é um subsídio que o estado dá para que, segundo os desejos dos merceeiros ricos, toda a gente deve ter dinheiro para lhes comprar os bifes mais rijos, que muitos dos clientes rejeitam, por causa dos dentes de ouro.

Não me digam que também não há merceeiros ricos. Já duvido de tudo e de mais alguma coisa, mas que há ricos merceeiros, disso não tenho dúvidas nenhumas. Estou a pensar naqueles merceeiros que têm talho na mercearia e não nos merceeiros que apenas vendem o arroz e a massa que quase não perdem a validade, nem começam a cheirar mal.

É evidente que estes são os merceeiros pobres, cada vez mais pobres, também por causa dos ricos merceeiros a quem, ao que parece, é muito difícil encontrar um talhante que queira talhar para eles. Tenho cá umas desconfianças de que há cada vez mais mulheres a cortar bifes, pela simples razão de que ficam mais baratinhas aos merceeiros.

As voltas que o mundo dá. Quem me dera ser mais novo, que quem ia imediatamente para talhante era eu. A minha vida mudava como do dia para a noite. Finalmente, podia ter bom bife, boa fêvera, vinte e quatro horas ao dia. A não ser que pudesse ser um merceeiro com muitas mercearias, muitos talhos e muitos talhantes. Ah, aí preferia.

 

 

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