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afonsonunes

afonsonunes

25 Fev, 2011

Ah valentes

Quem pensa que estamos num país fraco e falido, num país miserável e deitado aos bichos, como aparece muito em certas visões publicadas ou simplesmente opinadas, está muito enganado. Intelectualmente fracos, falidos nas iniciativas e miserabilistas nas ideias, são muitos dos que não merecem viver neste rectângulo imperfeito, mas perfeitamente compatível com quem cá quer estar.

Uma dessas imperfeições está precisamente na compatibilidade entre os que se sentem bem por cá, esforçando-se por melhorar o que podem, e os que se sentem mal aqui, tudo fazendo para piorar as suas próprias condições de vida, permanentemente mergulhada numa guerra contra tudo e contra uns tantos, em geral, muito poucos.

Pensam eles que são uns valentes só porque têm ao seu alcance um poder sempre voltado para a destruição, ainda que nessa caminhada levem na frente a sua pessoa, as outras pessoas, os seus haveres e os haveres dos outros. Quem não conhece ou ignora as suas próprias obrigações e os seus deveres, está a destruir os seus direitos, por mais lentamente que seja.      

Fosse possível dominar os poderes desses valentes que abundam por aí, e a vida sofreria de imediato transformações impensáveis, inclusivamente, para eles próprios. Desde logo, por ser uma dor de alma ver alguém encurralado onde não gosta de estar, porque não lhe dão tudo o que deseja, ou porque vê na sua sombra um fantasma que não tolera e lhe retira a capacidade pensante.

Não estamos num país sombrio nem tão pouco num país assombrado. Estamos num país cheio de sol onde muitos oportunistas o querem tapar com uma peneira. Julgam eles que o vão conseguir para sempre, mas os tempos que correm estão a mostrar que todos os poderes são cada vez mais removíveis, ainda que à custa do sacrifício de quem não tem poder nenhum.

Cada vez mais tudo é efémero, e os valentes que se cuidem, porque quando menos o esperarem alguém estará a empurrá-los para onde já deviam estar há muito tempo, não fora a complacência de quem não tem querido, ou não tem podido, fazer o mínimo dos mínimos das suas reais obrigações.

E estes complacentes, muitos deles mais medrosos e hesitantes, que incompetentes e fracos, não querem arriscar os cargos ou os privilégios que detêm, porque sabem que os valentes espreitam a cada esquina, se for preciso pelo buraco da fechadura, para exibirem o seu grau de valentia em tudo o que seja coisa pública, que julgam ser sua exclusiva propriedade.

E é dos valentes que eu quero deixar bem claro que os vamos encontrar na horizontal e na vertical da sociedade, não estando a pensar apenas, como se vê muito por aí, numa determinada classe política, ou num ou noutro elemento dos mais escolhidos para a imolação na praça pública.      

Os mais valentes de todos, são aqueles que têm poder para tentar imolar o próximo, seja através da língua, seja por qualquer outro meio semelhante, que pretendam transformar a repugnância que os move, no seu repugnante país que, verdadeiramente, os repugnará cada vez mais, à medida que o tempo revele as suas energias negativas.

À medida que os corajosos vão acordando da letargia que os tem mantido quietos e calados para não bulirem com os valentes que tomaram o poder de bloquear tudo o que não lhes interessa. Já há uns assomos dessa coragem que não pode tardar para que o país entre na legalidade e deixe o frentismo das decisões à medida.   

Este foi, é e será um país de valentes corajosos e determinados, estando eu convencido que os valentes arrogantes e agressivos terão o seu percurso à margem da sociedade que os irá colocando no seu verdadeiro lugar. Pobres de espírito como são, mesmo aqueles que são endinheirados, nunca se sobreporão aos que têm o privilégio da consciência tranquila.

Este não foi, nem nunca será, um país miserável. Não é, nem nunca foi, um país repugnante. Não é, nem nunca foi, um país de gatunos. Não é, nem nunca foi, um país de calões. É, sim, um país de sacrificados que trabalham e sofrem para conseguir sustentar todos aqueles que nunca ganharam o pão que comem.   

Este é o país onde muitas vezes nos tiram e comem as papas do nosso prato, sem que possamos evitá-lo. Têm a valentia das aves de rapina. Andam sempre à volta, voando em círculo acima do banquete que antevêem lá em baixo. É caso para dizer: Ah valentes! ...