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afonsonunes

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Não há melhor forma de badalar que fazê-lo com o badalo dos outros no pensamento, já que não se devem, nem sei se podem, colocar-se dois badalos em confronto directo, sem que se partam os sinos onde eles estão pendurados.

O silêncio que peço não é nenhuma pretensão de restringir badaladas seja de quem for, mas apenas o respeito por aquele dito popular que diz que enquanto um badalo, badala, o outro recolhe. Qual quê, de popular não tem nada, mas faz de conta.

Isto de badalar tem os seus quês. Por exemplo, tem a vantagem de ninguém nos perguntar onde aprendemos isso e a desvantagem de ninguém ligar a badalos que já badalaram tudo o que tinham para badalar.

Quando os badalos começam a repetir todos os dias as mesmas badaladas, começamos a pensar que estamos a ouvir os badalos dos sinos que nos convidam diariamente, e a horas certas, para irmos à missa.

Ora aí está uma boa forma de retemperar badalos gastos, cujo badalar já nos arranha nos ouvidos. Esses, pela manhã, à hora de tocarem os seus próprios badalos, podiam escutar o badalo que vem da igreja, e deixarem-se levar pelo chamamento de uma ida à missa.  

Enquanto ela durar, não vão estar a ouvir o badalo do chefe, nem o do presidente, nem o do secretário-geral, nem outro qualquer, que não sejam as rezas calmas do celebrante e, eventualmente, o badalo da campainha do sacristão, tudo num ameno convite à reflexão.

Depois, cá fora, tudo muda, porque muito poucos foram à missa. Pela manhã já têm a escala de serviço a cumprir, no que toca à badalada própria, ou à repetição daquela que a escala determina e manda executar.

Actualmente, adoro a sequência dos badaladores do chefe. Principalmente, pela organização perfeita da escala de serviço. Em cada dia há um que badala o acontecimento do interesse geral, sempre o mesmo, sempre o que interessa ao país.

Curiosamente, o chefe, no seu badalar diário, por uma questão táctica inatacável, badala o seu desinteresse pelo interesse geral badalado pelos seus badaladores, porque o interesse do país ainda não é esse. Ainda, badala o chefe. Já, badalam os escalados.

Perante estes badalos tão bem coordenados, exactamente, pela aparente descoordenação, podia eu lá alguma vez, jamais, deixar de pôr o meu badalo em posição de ligado, para que não fique com a fama de que não cumpro a minha escala de serviço.

O que eu não quero de modo nenhum é que alguém pense que eu trago para aqui badalos que nunca estiveram no meu pensamento, tão pouco dentro da minha forma correcta e digna de badalar, sem tocar fisicamente no badalo de ninguém.

Finalmente, para encerrar este dossier do badalo, deixo expressa a declaração sincera de que os badalos não me incomodam, mas sempre me vão tirando do sério, desejando, também muito a sério, que badalem todos em uníssono.

Depois, e de repente, zás, tirem as consequências lógicas do vosso badalar.