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afonsonunes

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 Este mundo de parvoíces só podia estar cheio, mesmo inundado, de parvos que se fartam de gozar uns com os outros. Isto num ritual que impressiona quem não entra nesse rol de disparates que só não vê quem tenha ideias suicidárias, mais ou menos encobertas por uma película de ignorância ou de uma dose exagerada de louca paixão.

Enquanto os parvos gozam uns com os outros, o chão vai-lhes fugindo debaixo dos pés sob a sensação enganadora de que o chão deles se reconstituirá com o chão que eles vêem fugir debaixo dos pés dos outros. É assim que o maior parvo é sempre aquele que pensa que os outros é que são parvos.

Evidentemente que há os heróis, parvos ou não, que preferem morrer imolados pelo fogo ou após uma greve de fome levada até às últimas consequências. Cada um lá sabe as linhas com que se cose. Cada um lá sabe quanto vale o seu heroísmo ou a sua parvoíce, para quem não consegue entrar nesse mundo do tudo ou nada.

A grande maioria das pessoas nem quer tudo, nem quer ficar sem nada, incluindo a própria vida. Daí que, salvo casos especiais em que entram situações extremas de honra e dignidade, quem morre porque não quer ser salvo, tem de ser considerado parvo, porque a lei da vida é um misto de conquistas e cedências.

Por vezes, muito complicadas, porque implicam escolhas de opções em que tem de se ponderar aceitar o mau para evitar o péssimo, ou exigir o óptimo quando está eminente a perda do bom. Ou ainda querer açambarcar para si próprio, tudo o que faz falta para garantir a sobrevivência de muitos que nunca exigiram nada.

Que parvos que eles são quando se contradizem com teorias que vão sempre em sentido contrário ao interesse daqueles a quem prometem lutas ferozes para fazê-los felizes quando, em boa verdade, apenas querem lutas que lhes permitam chegar lá acima para poderem pisar aqueles que odeiam, apesar de saberem que nunca vão melhorar seja o que for.

Que parvos que eles são quando querem que se corte nas despesas do estado e todos os dias se vangloriam com as tais lutas contra o estado, lutas que parecem de gatos e cães unidos, na disputa de um osso muito duro de roer, mas que os faz salivar exageradamente em relação àquilo que dele podem vir a tirar.

Que parvos que eles são quando confundem os seus apetites insaciáveis, com as reais possibilidades de enganarem quem os pode levar pela mão, ao banquete do poder. Pese embora todos os golpes de asa e todos os truques que toda a gente que não é parva, já conhece de ginjeira.

Que parvos que eles são quando se apresentam como os grandes espertos da salvação nacional, esquecendo que somos nós todos que temos de salvar-nos a nós próprios. Não é difícil verificar que muitos dos nossos grandes problemas são criados pelos parvos que não querem contribuir para a nossa salvação, para a salvação deles próprios.

Que parvos que eles são quando nos querem levar para o campo de batalha onde todos ficaríamos desarmados, à mercê das armas poderosas dos nossos antagonistas. Se querem luta, que lutem eles. Mesmo que saibam que estão a lutar, não contra moinhos de vento, mas contra os ventos da história.

Que parvos que eles são quando não são capazes de reconhecer que até nas lutas, em todas as lutas, tem de haver uma boa dose de bom senso, antes de se meterem nelas mas, principalmente, antes de atirarem para elas, todos aqueles que não sabem ou não podem fugir delas. 

Que parvos que eles são quando lutam por determinadas conquistas em que acabam por sair com meia vitória mas, mais tarde, ao vê-las contestadas por outros parvos, sacodem a água do capote, porque é mais fácil e cómodo estar do lado de quem protesta, não assumindo a responsabilidade das decisões tomadas anteriormente.

Os maiores parvos são sempre os guerreiros que não podem viver sem guerras, ou não fossem eles profissionais da luta, permanentemente envolvidos na guerra desenfreada pelo poder, através dos mais variados campos de batalha. Tudo, porque ainda não perceberam como e quando se conquista o poder.

Nestes dias carnavalescos até se compreendem muitas parvoíces mas, infelizmente, o carnaval já vai durante todo o ano. Daí que, ao gastar tempo e espaço com elas, é caso para dizer – que parvo que eu sou.