Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

08 Mar, 2011

Mudam as moscas

Já lá vão uns bons anos desde que comecei a ouvir falar da mosca da televisão. Tanto ano, que já nem sei a que propósito se começou a meter uma mosca num local tão luzidio como é uma televisão, onde a temperatura mais elevada que cá fora lhe é favorável, mas onde os papa-moscas também abundam mais que por todos os outros lados.

Toda a gente sabe que as moscas nunca estão paradas muito tempo no mesmo sítio. Daí que se vão mudando, sempre à procura de um lugarzinho melhor, pelo menos na esperança de que isso aconteça. Na verdade, num espaço tão amplo e tão rico, as probabilidades de sucesso são, também elas, muito ricas.

E são tanto mais ricas, quando se trata de moscas varejeiras, que são aquelas moscas grandes, mais ou menos negras, prontas a evacuar um montão de larvas minúsculas onde predomine o quentinho e não falte aquela coisa que as alimente, enquanto se mantiver o seu estado de letargia para que as asas nasçam e cresçam o suficiente para voar em volta da coisa.

É por isso que o povo diz que as moscas mudam, mas a coisa é sempre a mesma. E essa coisa tem fama de cheirar muito mal. E se há coisa que não devia existir, era mau cheiro num local tão amplo, tão luzidio, tão luminoso, como é uma televisão, onde até as moscas se podiam sentir felizes, mesmo sem aquela coisa.

Não há hipótese de ver as coisas de outra maneira que não seja com moscas em cima. Que vão, que vêm, tornam a ir e tornam a voltar. Isto para não falar daquelas que já se cansaram de mudar e essas, sim, já não se mudam, ficaram lá para sempre, presas pelas patinhas delicadas no mel, de onde não conseguem arrancar o ferrão doce e melado.

Na televisão, como em muitas outras coisas, as moscas mudam mas a ‘melda’ é sempre a mesma. Também se podem mudar as premissas ou seja, a ‘ melda’ muda, mas as moscas são sempre as mesmas, só que vão rodando à volta da mesa, comendo e esperando que a dita seja reposta nos pratos menos cheios.

Não sei qual das duas hipóteses será mais correcta no que toca à televisão. Mas sei que não andarei muito longe da verdade, se pensar que qualquer delas serve perfeitamente as moscas que nela poisam, que nela fazem zunir as suas asas e se deliciam com o doce da ‘melda’ e o quentinho das luzes da ribalta.

Pode haver quem esteja a pensar no problema do cheiro, por vezes forte, por vezes nauseabundo, no meio de todo aquele aparato sumptuoso. Lembro que as moscas não têm cheiro, embora tenham um sentido muito apurado de detecção de toda a espécie daquela coisa, daquela ‘melda’, que lhes enche as medidas.

Ah pois, já quase me esquecia dos papa-moscas que estão estrategicamente colocados perto de todos os acessos ao interior da televisão. As moscas credenciadas entram e saem à vontade, protegidas por um escudo invisível. As moscas que tentam a sua sorte, entrando sem qualquer protecção, são inexoravelmente electrocutadas.

Ali, não há moscas boas nem moscas más. Há moscas que já fazem parte da mobília e moscas que o próprio mobiliário destrói. Ali, há mel com fartura para algumas e muitos mata-moscas para outras. Enquanto umas se mudam zunindo de barriga cheia, outras vão desta para melhor de barriga vazia, sem um tremelique na asa.

Ora ‘melda’ para a televisão e para quem nela tudo faz por mostrar ao país aquilo que cá não faz falta nenhuma. E há tanta coisa, além das moscas, que ela podia e devia ajudar a mudar. Por exemplo, essa coisa a que dão o nome de mentalidade.