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afonsonunes

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09 Mar, 2011

Toma lá mais cinco

Expiraram já os cinco que foram à vida, sem que a vida tenha melhorado para mim e para todos aqueles que não fazem parte do número restrito de alguns felizardos que hoje, dia nove de Março de dois mil e onze, quarta-feira de cinzas, vão festejar alegremente os novos cinco que logo à tarde se iniciam.

Tenho a sensação de que há aqui um enigma qualquer na escolha desta quarta-feira de cinzas para a entrega de uma prenda tão significativa e que se queria de luz e cor para levantar ânimos e despertar anseios, mesmo naqueles que estão tristes por terem acabado de assistir ao enterro do carnaval, enterrando com ele o último sorriso de que dispunham.

Espero fervorosamente que, no momento alto da cerimónia de entrega de mais cinco, não abras tu um daqueles sorrisos que não se adequam à esperança de um início de quaresma que se sabe vir a ser de muito jejum e abstinência. Por isso, talvez não tivesse sido pior, ter escolhido o dia de ontem, ou mesmo o anterior, para esta festividade.

Ou talvez não tivesse sido despropositado fazê-lo no domingo magro anterior, isto para quem, por via das dietas forçadas e dos complexos de crises reinantes, não acharia bem que fosse o domingo gordo, o escolhido para dia de farta brutos. É que nestas coisas, há sempre quem ponha ‘rodriguinhos’ em tudo o que é decisão.

Bom, isto para não falar naqueles sujeitos imaginativos que estarão a congeminar uma qualquer razão para armarem um banzé muito discreto e sensato ali por perto, para aparecerem nas televisões, no primeiro minuto de cada telejornal, durante uma semanita completa. Claro que é legítimo, é democrática e tem montes de graça.

Mas, também compreendo que haverá quem não ache graça nenhuma a essas legitimidades até porque seria, para esses, uma falta de respeito para com a única pessoa que no país merece respeito, além de uma comparação despropositada com manifestações de igual teor, para com outro que é muito pior que ele.

Quando lhe disserem, toma lá mais cinco, ele dirá várias vezes que nos esperam muitas dificuldades, como já o fez muitas vezes, em muitas outras ocasiões, mas nunca dirá que já andamos nisto há ‘muitos cincos’, nem de quem é a culpa destes adiamentos de cinco em cinco. Muito menos dirá que também já adiou tudo quando lhe diziam, toma lá mais quatro.

Para intróito desse momento que espero seja suficientemente alto, por causa dos muitos baixinhos que também o vão ouvir, parece-me que já chega de conversa. Vou fazer um breve intervalo, como dizem nas televisões, e voltarei depois de ouvir o que serão os próximos cinco, pela boca de quem, mais que ninguém, sabe da coisa.

INTERVALO

Pois, cá estou eu de novo, agora reconfortado com uma permanência mais longa do que esperava na moleza do sofá mas, sobretudo, com uma tranquilidade de espírito que me é dada pela recordação da minha não contribuição para este ‘toma lá mais cinco’. Isto sem pôr em causa quem contribuiu para isso.

Se eu estivesse habituado a fazer a minha soneca ao princípio da tarde, não teria resistido hoje a dar continuidade a esse vício que dizem ser muito saudável. Mas, assim, lá resisti e até consegui resistir também à tentação de bater palmas, que mais não fosse porque não quis ser mais um a quem tão profundamente se agradeceu a origem da cerimónia.

Sim, porque me pareceu que eu nunca poderia ser um dos que, em consciência, daria ‘mais cinco’ a quem diz que é de todos e depois só fala para alguns. A alguém que escolheu a cerimónia errada para agradecer favores de amigos e fazer remoques aos inimigos, tudo numa lógica de verdade que uma viagem ao tempo desmonta facilmente.

E o que já se receava ficou hoje muito claro. A propaganda, que muitos julgavam já desnecessária, vai continuar durante mais cinco, mesmo sabendo tratar-se apenas de um capricho de orgulhos feridos.

Amigo e conhecido de longa data, ‘toma lá mais cinco’ mas poupa-me, por favor.