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afonsonunes

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 Até o uso das palavras devia ter limites bem demarcados para que não fosse necessário meter explicador para orientar o sentido que se lhes quis dar. Se as palavras tivessem sido sempre devidamente ponderadas antes de terem sido ditas, ou seja, se elas, as palavras, fossem sempre claras, não seria necessário traduzi-las depois.

Ainda se poderia aceitar alguma condescendência, quando elas são proferidas de improviso e sob alguma pressão ou tensão, mais ou menos justificável. Mas, é absolutamente imperdoável, se elas foram escritas, corrigidas por especialistas em discursos longos e pretensiosamente pedagógicos, e lidas e relidas vezes sem conto, antes de as meter no éter.

Depois, já não há nada a corrigir nem a explicar, pois o que lá está, está lá, e só o facto de se pôr em causa a interpretação que se lhes deu, já é uma prova de que elas, as palavras, foram desastradas, pensadas na estratégia ou na óptica do desastre, proferidas exactamente no sentido que depois se lhes pretende retirar.

É por isso que o uso das palavras devia ter limites mas apenas e só, no sentido de que elas sejam a expressão da verdade provada e não da verdade apregoada, conveniente e distorcida, quando não, como muitas vezes acontece, ser a expressão de uma verdade mais que mentirosa, pior, uma verdade de má fé.

Quando se diz que o estado de pobreza tem limites, não se está a falar verdade. Basta andar de olhos abertos na rua para ver que o único limite que ela tem é a morte. Sim, porque há muita gente que morre de fome, de frio e de muitas outras carências. Então, é esse o limite que os demagogos lhe estipularam e convivem com isso na consciência.

Porém, nunca ouvi esses demagogos dizerem que a riqueza devia ter limites. Sim, porque esse é o seu estado, o estado que eles sempre quiseram forte e continuam a querer intocável e duradouro, ainda que passem por cima de quem depois lamentam profundamente o estado em que os deixaram.

Se o estado de riqueza tivesse um limite aceitável e justificado pelo trabalho e pela seriedade com que foi conquistado, então, sim, o estado de pobreza teria, com certeza, um limite decente e justo, dentro de uma sociedade solidária em que todos os limites de tudo o que a influencia, seriam realmente respeitados por toda a gente.

A hipocrisia devia ter limites, para que não se falasse de esforços conjuntos, com duas pedras na mão contra alguns, ou a falar de tolerância e solidariedade, com o rosto e a voz crispados a ponto de se poder vislumbrar no lado de dentro, um estado de espírito onde se adivinha um rancor latente e uma contradição gritante entre as palavras de parágrafo para parágrafo.

Se o limite da vida é a morte, o limite da decência não são os jogos de palavras com que apenas se pretende cobrir a indecência de vidas suportadas por duplas personalidades, em que se apregoa muita moralidade e se praticam imoralidades a toda a hora, com consequências graves para muita gente.

Realmente, devia haver limites para tudo. Mas, infelizmente, para certa gente, não há limites para nada.