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afonsonunes

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17 Mar, 2011

O elogio do defunto

Parece que finalmente vai haver funeral, uma vez que também parece já haver defunto, condição essencial para que se celebrem as tão desejadas exéquias. No entanto, já é de esperar tudo, depois de tantas tretas e de tantos ameaços de abortos, quer por parte do regedor da freguesia, quer por parte do vigário da paróquia e do seu fiel sacristão.

Nesta freguesia tradicional ainda funciona tudo segundo a velha tradição e segundo a tradicional hierarquia à antiga portuguesa. A entidade superior é realmente o vigário. Além das rezas, dá as suas ordens ao sacristão que, por sua vez, incentiva e orienta o regedor e seus colaboradores, especialmente, os oradores e autores dos sermões diários.

Quanto ao defunto, manda a tradição que se diga que foi um exemplo de bem servir para toda a gente que o conhecia e sempre lhe dedicou uma estima inultrapassável, além de um respeito de se lhe tirar o chapéu. É certo que este elogio vem com alguma antecedência, porque o defunto ainda mexe, mas já se pode ver o coveiro da freguesia de pá em punho.

Como manda também a tradição, falta a última palavra do vigário da paróquia e do seu fiel sacristão, o que não invalida que os fregueses vão já prestando as últimas homenagens àquele que está praticamente falecido. Da justeza dessas homenagens vai falar-se muito nos próximos tempos pois agora o corpo ainda está quente e ninguém se quer queimar.

Para uns, o defunto foi um gajo porreiro que conseguiu enfrentar os bichos com firmeza e muita frieza, enquanto para outros, ele sempre foi um safado que, finalmente, se vai safar. E assim, digo eu, vai deixar ao próximo vivo, a tarefa de lhe emendar a mão e provar até que ponto o defunto foi um tipo porreiro ou um irritante safado.

Como é normal, para o lugar do morto vai um sujeito que está vivo, mas há muito quem questione por quanto tempo estará ele de pé no seu posto, onde até pode permanecer por muito tempo numa posição mais cómoda. Pode ter que esperar sentado por algumas decisões mais chatas, ou de joelhos, se for um crente nos poderes superiores.

Uma coisa é certa. Não há vivo nenhum que consiga fugir eternamente à lei da morte logo, à sua transformação em defunto, a curto, médio ou longo prazo. Foi o que aconteceu com o defunto que agora se prepara para prestar contas. Todos, perdão, quase todos, lhe atribuíam poderes sobrenaturais no domínio de tudo e de todos e afinal também se vai.

Vamos lá ver se não estou a cometer o erro de anunciar um funeral, quando o morto ainda mexe. Tenho de ter em conta que se trata de um pré defunto muito resistente, ou não tenha ele conseguido lutar contra poderes que muitos julgavam impossível resistir-lhes durante escassos minutos, quanto mais durante uns bons anos que já lá vão.

Nunca se sabe se o vigário da paróquia, o próprio regedor da freguesia, ou até o devoto sacristão, não são convenientemente manipulados, ou simplesmente convencidos, a adiar as exéquias para lá do tempo de vida que o destino parece já ter traçado definitivamente. Para quem não acredita no destino, certamente que acredita no inatacável vigário.

Haja o que houver nesta paróquia onde toda a gente se dá bem, o defunto, se o vier a ser já, vai deixar muitas saudades. Principalmente, porque aceitava de bom grado, o que lhe queriam dizer, não raras vezes com um sorriso que cativava qualquer um. Só não aceitava que lhe beijassem as mãos, porque não se sentia assim tão divinal.

Tinha um prazer imenso em ver toda a gente feliz. Daí que não fosse capaz de negar nada a ninguém. Foi sempre um mãos largas, um mãos rotas, um mãos de levar pancada, mas nunca um mãos de a dar. Não se pode imaginar ninguém mais pacífico, tão pacífico que sempre condenou todas as lutas que via por perto.

Se me fosse permitida a honra de um epitáfio, diria simplesmente, agora vai em paz, mas volta para fazer a guerra.