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afonsonunes

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21 Mar, 2011

Mentiravilhas

Não, mentiravilhas não é uma palavra do vocabulário inglês nem do português, mesmo daquele que saiu do tal acordo de que eu pessoalmente não gosto. Estou no meu direito, que é igualzinho ao daqueles que o geraram e o adoram. Portanto, mentiravilhas só pode ser um termo do vocabulário afonsês, que é o meu. Tal e qual.

Para aqueles que dizem que vivemos no país das maravilhas, eu digo que vivemos no país das mentiravilhas, submetendo-me desde já ao mais rigoroso teste que defina quem está mais perto da razão, podendo aceitar que essa razão não está só de um lado, nem precisamente ao meio, mas algures num ponto que eu vejo claramente muito próximo de mim.

Não admira pois que até eu me sinta mentiravilhado com o que se passa à minha volta, quando os mentiravilhosos políticos e seus ajudantes de campo e de gabinete, se desfazem em esclarecimentos e denúncias sobre as suas mentiras feitas de verdade ou, se quiserem, as suas verdades de mentira feitas.

Vivemos no verdadeiro paraíso da mentiravilha em que se pretende passar a ideia de que mentiroso só há um, quando estamos realmente rodeados, ou cercados, por um autêntico enxame de vespas humanas munidas de um ferrão verdadeiramente mentivenoso que dá, a quem não esteja a pau, uma ferroada que parece ter mel, onde apenas tem veneno puro.

Compreendo mais ou menos as mentiras de estado, ou não fossem elas o sal e a pimenta de uma sociedade ávida de mexericos e especulações que lhes quebre a monotonia de vidas chatas e frustradas que precisam de sair à rua para gritar e esquecer o silêncio que faz tremer as suas casas durante grande parte do dia e da noite.  

E isso não se consegue com um estado certinho e direitinho, onde tudo se passa com o máximo de seriedade e verdade, onde não há o mínimo atrito entre aqueles que o compõem e aqueles que o dirigem. Esse seria o estado maravilhoso contra o pagode mentiroso, já que tinha mesmo de haver o bom e o mau da fita.

Inevitavelmente, temos a obrigação de suportar as mentiras contra o estado, para contrabalançar as mentiras deste, mesmo que o sejam só de nome, pois a fama e o proveito nem sempre andam de mãos dadas. Há verdades de estado que têm de morrer como mentiras, enquanto as mentiras contra o estado, morrem sempre como verdades.

Esta fase do país político tem aspectos altamente preocupantes, entre eles a verborreia de mentiras que circula na generalidade das bocas de todas as correntes partidárias, em que o sacudir da água do capote ganha uma evidência confrangedora. Ninguém quer assumir claramente aquilo que deseja, como se tivesse medo da própria língua.

Como se já estivessem a adivinhar que os eleitores não são parvos e conhecem muito bem quem anda a jogar às escondidas com eles. Como se esses eleitores não soubessem que, se os que estão, não gostam de sair, os que querem entrar estão em delírio ao verem a porta do poder entreabrir-se.

O mais curioso é quererem fazer crer que vão entrar porque são empurrados, repudiando a ideia de que estão eles próprios a empurrar os que lá estão. E andamos nisto há tanto tempo que, realmente, apetece dizer por onde anda a competência, a experiência, o conhecimento, a seriedade e a verdade, de quem tanto as apregoou e prometeu usá-las.

Foi por tudo isto que eu inventei esta palavra que ainda não consta do dicionário, mas vai constar um dia - mentiravilhas - é o que mais temos neste país que podia ser de maravilhas.