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afonsonunes

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O meu conselho foi convocado para esta tarde e, porque é constituído por gente muitíssimo pontual, vai começar dentro de escassos dez minutos. Precisamente às quinze horas ou, popularmente falando, às três da tarde. Daí que já aviste pela janela mais de uma dúzia de conselheiros, fumando o seu cigarrito antes de entrar.

Noto que estão muito compenetrados, ao contrário das pessoas que se movimentam na rua. Aqui, nada de novo, uns correm, outros passeiam, enquanto os autocarros cheios se desforram hoje, dos dias de greves anteriores, e enquanto se preparam para as próximas. Os utentes aproveitam enquanto podem, já que para pagar não há greve.

Mas, quem não faz greve são os meus conselheiros, pois o prémio de presença nem sequer deixa pensar nisso. Aliás, estou convencido de que eles até de borla vinham a correr, bastando-lhes a recompensa de contribuírem decisivamente para as minhas decisões, no caso, importantíssimas, até para as vidas deles.

Bom, como tenho apenas estes minutinhos para escrever estas linhas, antes do início do conselho, tenho de acelerar. Mas, se acaso o tempo não chegar, tenho horas para alinhavar isto, à medida que eles vão falando, fingindo que estou a ouvi-los com muita atenção. Enquanto vou escrevendo, eles julgam que estou a tomar notas do que eles dizem.

Como eles são dezanove, comigo vinte, isto até dava para fazer um lanche ajantarado, o que talvez nem fosse mau, no sentido de facilitar consensos, tão difíceis nos tempos que decorrem. Também, se fossem fáceis, qual seria o meu papel no meio disto tudo. Já estou mesmo a ver que haveria quem propusesse a extinção do meu posto de trabalho.

Sinceramente, eu sei na perfeição que alguns dos meus conselheiros pensam exactamente que o conselho podia bem passar sem mim, com o argumento de que eu apenas oiço o que eles dizem, não ligando patavina ao que dizem muitos deles. Como eles sabem que é assim, também não têm a coragem de dizer o que pensam.

E eu, corajosamente, faço de conta que não sei o que eles pensam e, no fim do conselho, abro um grande sorriso e agradeço-lhes do fundo do coração, toda a inestimável colaboração e lucidez das suas ideias, de todas elas, claro, para uma tomada de decisão, que será minha, só minha, mas que me levará a dizer que cumpri com os meus superiores deveres.  

Mas, antes do fim do conselho, temos o início e esse está mesmo à beirinha. A esta hora já estão perfilados em frente da porta de entrada, segundo a ordem do número que lhes foi atribuído por mim. Pois, todos têm um número, de um a dezanove, que é como eu trato cada um deles durante os trabalhos.

Por exemplo, na entrada cumprimento-os todos, dizendo, como está senhor número um, e por aí adiante até ao número dezanove. Parece fastidioso mas não é. Para cerca de uma dúzia há sempre uma gracinha que faz o tempo correr às mil maravilhas, enquanto para cerca de meia dúzia, o sorriso amarelo, quebra a monotonia.

O momento mais excitante chega quando digo, tem a palavra o número dezanove. Porque aí já todos estão com os cotovelos apoiados na mesa, preparados para aliviarem o peso das cadeiras. Eles já sabem o que disseram e eu já sei o que vou fazer. Tanto eles quanto eu, não têm dúvidas de que este conselho foi extremamente útil para todos.

Bom, são quinze horas em ponto. Vamos lá cumprir o calendário. Logo, às vinte horas, vou anunciar o resultado final, que só pode ser, vitória, empate ou derrota. A propósito: De quem?