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afonsonunes

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Neste país que é o nosso, o de quem fala e escreve aqui em português, Sócrates é o governo e o governo é Sócrates. Suponho que não estou a meter água, pois é ele que anda de boca em boca, nas boas e nas más-línguas que o não poupam nas bocas com que o apupam ou o aplaudem nas suas incursões decisivas.

Seguindo esta linha de pensamento, Sócrates anda metido na cabeça de muita gente, diria mesmo que anda metido na cabeça de uma boa parte dos portugueses, por si, pela sua pessoa, ou na sua qualidade de responsável pelo governo que chefia. Diria mesmo que Sócrates é uma terrível dor de cabeça para muita gente.

Se estiver correcto o que li algures, Passos Coelho tem o governo na cabeça. Não compreendo o alcance desta notícia. É evidente que, mesmo antes de ascender à liderança do seu partido, já ele tinha o governo na cabeça. Parece que ninguém duvida de que ele não tivesse uma ambição um pouquinho maior do que ser presidente do partido.

Também muito antes de conquistar o partido, certamente que já tinha Sócrates na cabeça, ou não fosse este a imagem de um governo que Passos queria e quer para si. Tudo normal, normalíssimo mesmo, para um líder que chegou ao patamar onde se mete na cabeça a alternância do tão desejado, e a toda a hora reclamado, direito ao poder.     

Aqui, o problema está na relação entre a cabeça e o governo e, por via mais que directa, entre a cabeça e Sócrates. Muito volumosa tem de ser a capacidade de uma cabeça onde caiba um governo inteiro, mesmo que tenha uma dúzia, ou menos, de ministros. É preciso ter em conta que isso é muita bagagem para uma cabeça só.

Agora imagine-se, se essa capacidade tiver que ser duplicada ou triplicada, para que nela caiba Sócrates, com todo o seu rol de gente, ao que dizem sem cabeça mas, mesmo assim, de muito difícil arrumação em qualquer arquivo mental. Não basta dizer que se tem um governo na cabeça. É preciso concretizar, sem nomes, óbvio, que raio de governo é esse. 

Suponho eu, que Passos Coelho, depois de todos os dias meter e tirar do armazém tanta coisa inútil, não disponha de espaço para lá meter um governo novo, sem tirar de lá, do armazém mental, toda a tralha que lá meteu há muito, e continua a meter agora, sem que se veja que também vai tirando outras tralhas que lá não fazem falta nenhuma.

Portanto, quando diz que tem o governo na cabeça, é conveniente esclarecer, qual o governo ou governos que lá tem. Mas, admitindo que seja o governo dos seus sonhos, convém pôr preto no branco, se não está a misturar o governo que já não é, com aquele que julga ir ser mas que, obviamente, ainda não é.

Depois, além de ainda não o ser, terá de contar com as negas que, até ao momento da verdade, se o momento não vier a ser de mentira, não o obrigue a uma qualquer remodelação que terá de ser feita no tal governo que, antes de o ser, pode acabar por nascer já remodelado. Isto, não é retórica de campanha eleitoral.

Nestas coisas é preciso ter muita cabeça, a qual não pode estar cheia de tralhas e de ar e vento, porque o espaço fica depois muito reduzido para o que é absolutamente necessário e essencial, caso da memória, da clareza de ideias, dos conteúdos simples e úteis. Em suma, que o espaço não falte para o normal funcionamento da massa cinzenta.

Ter governos na cabeça é uma daquelas banalidades que, como outras que têm vindo a público, podem levar a pensar que a cabeça ainda está demasiado vazia. Pode ter lá um governo, mas pouco mais.