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afonsonunes

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06 Out, 2008

Mamã eu quero

 

 
Pudera, não havia de querer uma coisa tão desejada e tão difícil de conseguir, apesar das muitas facilidades que se apregoam por aí, havendo até quem se aventure a falar de facilitismos. Pelo contrário, há quem fale de dificuldades de toda a ordem, mesmo no que toca àquilo que eu estou farto de pedir à minha mamã, sem resultado. E ela só me não dá aquilo que não pode, pois não é diferente de todas as mamãs do mundo, quando se trata dos seus filhos.
Sem mais rodeios vamos ao fundo da questão. O que eu mais queria era segurança, tanto em casa como fora dela. A minha mamã já me explicou que há muita gente importante a conversar sobre o assunto e disse que está convencida que não são eles que cometem esses crimes de assaltos e mortes a cada dia que passa. Não é que não pudessem ser potenciais arguidos, mas diz que é mais sensato desconfiar de desconhecidos que a gente nunca viu em lado nenhum, por causa de possíveis ameaças subsequentes.
No seguimento da conversa maternal, confessei que me parecia aconselhável um grande consenso nacional no combate a esse flagelo, convidando-se todas as partes interessadas para um encontro informal, onde estariam representantes dos assaltantes, dos assaltados, dos advogados, dos polícias e dos juízes. A minha mamã soltou logo um hum de nariz torcido, como se eu acabasse de sugerir o maior disparate do mundo. Foi então que eu esclareci que sempre ouvi dizer que as coisas se devem resolver pelo diálogo franco e leal entre todas as partes.
Aí, a minha mamã puxou dos galões e fez-me ver que a minha ignorância era tal, nesta complicada matéria, que me tinha esquecido da parte mais importante para a resolução do conflito. E, sem me deixar piar a mais leve dúvida, logo acrescentou que eu esquecera o representante do governo, de preferência, ao mais alto nível, ou seja, o primeiro-ministro. E veio o desabafo cruelmente repreensivo: aprende, filho, que eu não duro para sempre.
Meio corado pela reprimenda, meio envergonhado pela ignorância, enchi-me de coragem e pensei que, já agora, valia a pena despejar o resto da ignorância que ainda tinha cá dentro. Sabe, mamã, quem deve lá estar no futuro é o secretário-geral, que ainda não existe, logo, o governo não tem nada a ver com isso, pois todos os outros fazem parte de órgãos de soberania ou de órgãos independentes, que não aceitam interferência de ninguém, muito menos do governo, nas suas missões de grande relevo para a salvaguarda da liberdade e da democracia.
Ah! – exclamou a minha mamã com surpresa – E os ladrões?...