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afonsonunes

afonsonunes

19 Mai, 2011

Depois de mortos...

Viver e morrer faz parte do destino de todos os seres vivos. Ninguém é eterno e ainda bem, porque os bons têm de dar lugar a outros bons e os maus têm de deixar em paz aqueles a quem envenenaram a vida.

A verdade é que há uma certa tendência por parte de gente que entende que depois da morte tudo se deve ignorar, por considerar que todos os finados, coitadinhos, acabam por não merecer a chamada para prestação de contas no Além.

É um sentimento que peca pela injustiça de misturar vidas dignas com vidas indignas, mortes que são perdas para muita gente e mortes que são um alívio para grandes sofrimentos passados e, sobretudo, para que o mundo fique melhor.

Diz um ditado antigo que, quem com ferros mata, com ferros morre. Sem que isto tenha a ver com a pena de morte, entendo que quem se envolve numa guerra em que mata a torto e a direito, não pode esperar clemência dos seus adversários no campo de batalha.

Coisa bem diferente é a captura ou a rendição enquanto dura o confronto. Nessas circunstâncias, ninguém tem o direito de tirar a vida a ninguém. Mas, quem está escondido, à espera de poder matar, não se pode considerar que está fora do campo de batalha. 

Daí que, lamentar a perda de uma vida destas, numa guerra suja e violenta de muitos anos, é um atentado a todas as vítimas que provocou, se não for uma daquelas paixões ideológicas ou similares que se sobrepõem ao mais elementar respeito por vítimas que nunca mataram.

A morte de um assassino de massas é apenas um acerto de contas com o destino, que não festejo, mas que me leva a pensar que ainda se presta contas pelo bem ou mal que se faz por esse mundo. E isso é um bálsamo para quem foi vítima inocente de quem nunca conheceu.

Pena é que tanta complacência com criminosos desse tipo, não tenha igual complacência para com quem erra involuntariamente ou, simplesmente, porque faz, ou tenta fazer, o seu melhor. Aí, reina a sentença implacável do ódio e de outros sentimentos mais que primários.

Crimes são crimes, depois de provados e julgados. Mortos ou vivos, todos os criminosos devem pagar pelos seus crimes. Nesta vida ou na outra, se ela existir. Pactuar com os piores e ter sempre o dedo apontado a outros, só porque se julga que o são, é muito perigoso.

Sobretudo, mostra uma contradição interior incompreensível, à luz de um perdão levado ao extremo, ou à sombra da crueza de uma condenação que pode levar a consciência à beira de um sentimento criminoso.

Porque todos têm uma coisa a que devem obedecer cegamente. A consciência, se é que a conservam limpa e tranquila. Será através dela que todos serão julgados, mais cedo ou mais tarde. E nem todos serão bonzinhos, mesmo depois de mortos.