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afonsonunes

afonsonunes

22 Mai, 2011

Não és o único

Já começava a estar farto de ouvir falar apenas de um mentiroso neste país que, sendo pequeno, não o é assim tanto, que se dê ao luxo de ter verdadeiros a tropeçar uns nos outros. Se assim fosse, tenho a certeza que nós, portugas, estaríamos na vanguarda da Europa, quiçá do mundo, em termos de gente verdadeiramente de palavra.

Felizmente que tudo mudou como por encanto, desde que se começaram a ouvir vozes que, de algum modo, estavam permanentemente a ser abafadas pelos faladores pagos e seus patronos. E, atrás deles, um batalhão de ecos devidamente afinados, diria mesmo que convenientemente uniformizados.  

Isto só foi possível devido a um estalar de dedo com volume, que pôs o país no alvoroço de ter de deitar cá para fora, tudo o que andava comprimido lá dentro de cada um, uma vez que, mais uma vez, lhe ia ser dada a possibilidade de mexer no poder, esse cancro que, cada vez mais, parece não ter cura.

Foi então que me apercebi que, afinal, há muitos mentirosos espalhados por aí. Porque se conclui que, quantos mais falam, mais são os mentirosos. Não é só um, nem tão pouco são os que vêm do mesmo lado. São muitos, quase arriscaria a dizer que já são todos, e vêm de todos os quadrantes e de todas as origens.

Já que todos mentem, espero que permitam que me inclua no rol dos mentirosos inveterados, só não sabendo ainda se devo ficar no lote dos ignorantes, dos interesseiros ou dos de má fé. Ainda não decidi porque, na verdade, não estou suficientemente preparado par tomar uma decisão tão importante para o meu ego.

O lote dos mentirosos de má fé parece-me o mais robusto em termos de adesões, sendo constituído por mentirosos que não têm grandes necessidades de sacar, gostando mais de socar, se possível, com aqueles instrumentos de artes marciais imaginários sempre actuantes no pensamento, como se vivessem permanentemente os golpes que mais gozo lhes dão.

O lote dos mentirosos interesseiros tem características muito pacíficas, trocando palavras doces por dinheiro graúdo, sempre com o olho nos negócios do vizinho, espreitando a oportunidade de lhe meter a mão na algibeira, mesmo à vista de toda a gente, prometendo nada tirar, mas antes, colocar ali este mundo e o outro.    

O lote dos mentirosos ignorantes inclui predominantemente todos os mentirosos inocentes ou não, com mais ou menos inteligência, com maior ou menor grau de ignorância, todos com uma vontade enorme de a mostrar, falando pelos cotovelos, já que nem sempre a boca comporta uma língua tão grande, completamente desligada do cérebro.

Com três lotes de mentirosos deste calibre, como é que eu hei-de decidir onde devo incluir-me. Claro que não é nada fácil. Contudo, estou inclinado a entrar no lote dos mentirosos ignorantes e, dentro destes, nos inocentes, por me parecer que sempre é mais benéfico para o meu espírito de mentiroso com consciência.

Ultimamente, tenho dedicado algum tempo a observar e a catalogar os mentirosos que vejo e oiço, que são muitos, obviamente, nesta altura em que todos andam já agitados desde as unhas dos pés à raiz dos cabelos. O meu trabalho tem sido um monte de complicações, porque todos mentem a torto e a direito.

Admiro especialmente todos aqueles que, como eu, se envolvem nesta mentira do dia-a-dia, tanto da escrita como da leitura no meio que nos rodeia, porque é impossível, repito, é impossível, que alguém consiga dizer uma verdade, que não seja logo contestada e classificada como mais uma mentira por algum mentiroso discordante.

Desde o tipo que passa o dia à porta do café a mentir ao parceiro do lado, até a qualquer um dos que sonham vir a ganhar a taluda do dia cinco do mês que vem e todos os que giram atrás deles, mentindo várias vezes a cada quilómetro de estrada, todos se excitam com as mentiras que julgam que me impingem, mal sabendo eles que quem lhes prega as maiores mentiras sou eu.

Sim, porque todos eles sonham com a verdade da minha simpatia. Mas, de verdade, apenas podem contar com a mentira de os não conhecer de parte alguma.