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afonsonunes

afonsonunes

03 Jun, 2011

O fim da purga

 

Bendita a hora em que a laranjada fez saltar a tampa provocando a realização de eleições no próximo domingo. Porque o povo andava triste de morrer, com a crise em cima da pele, vergando-o ao peso de um governo que, no seu conjunto, não devia pesar mais que umas moedinhas de cêntimo, não tantas, contudo, como as que ainda existem nos bolsos dos cabisbaixos.

A laranjada chegou a tremer durante algum tempo com a proximidade da rosa que tanto os fez mexer e que tanto os agitou. Esta espécie de susto desencadeou um inchar de peitos à beira de rebentar, com aquela novela das sondagens, criadoras de um suplício provocado pela dúvida do foges tu ou fujo eu. Como ninguém fugia, entrou o pânico em algumas cabecinhas mais quentes.

Foi então que tudo isto, e aquilo, se transformou numa autêntica purga chamada campanha eleitoral em que a chachada, os atropelos à mais elementar das lógicas, o desvario de quererem meter nos olhos dos eleitores aquilo que só os propagandistas viam e mais aquele eterno pecado de cada um só saber falar dos outros, esquecendo o muito que devia dizer de si próprio, causaram náuseas enormes nas mentes ainda não poluídas.

As sondagens até fizeram o milagre de se compatibilizarem durante muitos dias. Depois, ainda unânimes, descolaram a laranjada. Ora isso foi o fim da macacada com o extravasar dos recalques, como se tudo estivesse já decidido, como se o próximo domingo fosse já um dia riscado do calendário, tudo acompanhado de mais asneiras, de mais soluções imaginativas e de mais certezas de soluções que já vinham de todo o lado.

E assim chegamos ao último dia de palhaçada, com quase toda a comunicação social a embandeirar em arco, soltando laranjada por todo o lado, mostrando um fim de festa antecipado do que será depois de domingo e evidenciando a rigorosa parcialidade que de há muito se não desviava. Por isso, toda a festa que já se vive na laranjada, muito se deve a essa lata que só deita laranjada, com sumo ou sem ele.

Mandaria o rigor informativo que, ao menos até ao último minuto do dia de hoje, se fornecesse informação por igual das forças concorrentes, principalmente, nos meios do estado. Ao contrário, tem sido um festival de laranjada, com espaços informativos de apoteoses mais fabricadas que reais mas, sobretudo, não deixando tempo para que se vissem as actividades dos outros.

O país não é, nem nunca será um laranjal obrigatório, por mais eleições que vença ou perca, por mais que queiram que esqueçamos o que já fizeram ao país, em anos que bastante contribuíram com uma forte machadada para os males que nos afectam. Se há gente que não tem memória, também há gente que nunca a perderá.

Por mais que regressem múmias, caçadores com fisgas, sonsinhos, atrevidos, beligerantes, caladinhos, ou ainda os que nunca enganaram ninguém com o seu paleio ou o seu dinheiro, o país tem dignidade suficiente para, mais tarde ou mais cedo, retomar o seu caminho, porque quem não respeita os outros, nunca será respeitado.   

Para muitos, o país tem aturado um hábil mentiroso. Para muitos, o país já está preparado para aturar um inábil e ambicioso aprendiz de mentiroso. Dizem os entendidos que a escolha já está feita. Dêem folga a toda a máquina eleitoral no domingo. Sempre se poupam os tais cobres que o sonsinho diz que já não há.

E assim está definido o tom da nova campanha eleitoral que começa já na próxima segunda-feira, após a apoteose final daquela que termina no domingo.