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afonsonunes

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08 Jun, 2011

Paços Cueilho

De oitenta e tais a noventa e muitos, foram mais de dez anos de oportunidades perdidas, durante os quais o nosso grande mal foi exactamente o contrário do que se passa hoje. Dinheiro a mais, dinheiro para destruir tudo o que havia, em nome de uma vida de papo para o ar, em que o dinheiro chovia mesmo quando não se via uma nuvem no horizonte.

Chuva de dinheiro que permitiu que deixássemos de fazer comida em casa, para recorrermos ao take-away que a Europa rica nos servia ao preço da chuva. Era bom e era barato, tanto mais que pagávamos em moedas e recebíamos o troco em notas gordas que, curiosamente, não ficavam nos bolsos de todos, mas apenas de alguns, muito poucos.

Dizem alguns que foram dez anos de progresso. À sombra de um monstro. É verdade. Nunca alguns tinham vivido tão bem e nunca tinham podido gastar tanto dinheiro sem trabalhar, logo, sem o ganhar. Vida boa, mas estava-se mesmo a ver que não podia durar sempre, pois o tempo viria a demonstrar que não se pode comer eternamente sem nada produzir.

Às oportunidades perdidas seguiram-se as oportunidades empatadas, em que se foi metendo água, sem que houvesse quem lhe abrisse um percurso de escoamento. É que meter água era mais fácil que ter o trabalho de fazer o escoamento. Em empate técnico, a água foi-se acumulando e muita coisa foi ficando submersa.

E quando assim é, nada mais natural que vá surgindo uma zona alagada, que se irá transformando numa região pantanosa e, mais tarde, num autêntico pântano. Do qual os que já estavam habituados a viver de papo para o ar, logo disseram que a culpa não era deles, pois os seus direitos estavam adquiridos e bem adquiridos. 

Nestas coisas é sempre muito mais fácil empurrar um responsável para o pântano, que fazer a drenagem das águas estagnadas para o secar. Mas, centrando os olhos no horizonte longínquo, pode ver-se perfeitamente onde é que as oportunidades perdidas entroncaram com as oportunidades empatadas.

Não tardou que se atingisse a época da falta de oportunidades, tal a dimensão do monstro e, de repente, alguém descobriu que estávamos todos de tanga. Foi muito decepcionante termos de encarar uma situação em que os endinheirados excessivos não conseguiam pagar o indispensável take awai a que já estávamos habituados.

De tanga mas felizes, porque o tempo estava óptimo, a roupa não fazia falta nenhuma e, ao fim e ao cabo, pagar o take awai não era assim tão importante, nem tão urgente, embora houvesse umas vozes, daquelas que não chegam aos céus, que diziam estarmos a mandriar muito e a comer demais.

Efectivamente, a pouco e pouco foi-se notando à evidência que havia cada vez mais obesos na nossa sociedade, abundando nela aqueles gordinhos simpáticos e gordinhas anafadas, que se viram obrigados a deixar de fazer alguma coisa para se entregarem aos ginásios e aos passeios pedestres para abater uns gramas por semana.

Da tanga à banca rota foi um vê se te avias. Curiosamente, foi quem sempre usou uma gravatinha a condizer com a tanga, que mais depressa avistou lá ao longe, mas cada vez mais perto, a malfadada banca rota para uns, mas abençoada para aqueles que nela viam o fatinho completo que, de domingueiro, passaria a ser permanente.

Armou-se o cerco e com ele o circo, com o espectáculo habitual, onde predominavam feras esfomeadas que se digladiaram sem regras e sem escrúpulos, sabendo que a vitória seria o manjar da fortuna. De entre as armas utilizadas nunca se falou de oportunidades perdidas, de monstros, nem de oportunidades empatadas, nem tão pouco de tangas.

Mas falou-se quase exclusivamente de banca rota, de uma banca rota de meses, como se toda a rotura não fosse da responsabilidade de todos os que comeram o que não ganharam, como se não tivessem sido todos a contribuir para o esbanjamento e despesismo que não dá sinais de parar, apesar do cerco que já lhes montaram os que vieram de fora.

Findo o espectáculo do circo interno, com o cerco a ser progressiva e cautelosamente aliviado, e já depois de conhecidas as feras que sobreviveram, já não há banca rota nem remendada, já se navega num mar calmo e sereno, já se respira esperança e confiança. Como tudo é fácil. Como o circo é cruel.

Todas as oportunidades, os monstros, os pântanos, todas as tangas e até a banca rota, eram tudo coisas a fingir. Agora, não se espera, nem se tolera sequer, uma mini tempestade num copo de laranjada.