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afonsonunes

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08 Out, 2008

A governanta do tio

A governanta do meu tio era uma espécie de gerente bancário, porque também ela podia meter a mão no dinheiro lá de casa e distribui-lo pelos fornecedores que, no caso, funcionavam como clientes de um banco. Esta espécie de semelhança tinha a ver apenas com o facto de o dinheiro para ambos, significar que o podiam usar à vontade sem que nada lhes saísse do bolso próprio. O bolso, em qualquer dos casos, é sempre dos outros.

O meu tio tinha muitas semelhanças com aqueles fidalgotes meio falidos de antigamente e que ainda andam por aí, que mais não seja nos romances dos nossos grandes mestres da escrita. Nem por isso o meu tio se preocupava muito em analisar as contas da governanta, até porque estava convencido que, nessa matéria, ela era bem capaz de lhe passar a perna, por mais que ele pegasse na lupa e nos cadernos escritos a lápis de tinta, por acaso muito nítidos.
Isso não quer dizer que o meu tio não conversasse muito com a governanta, sobretudo, para estar informado e poder manter aquelas conversas de café com os amigos, em que se faziam análises de evoluções e de perspectivas da economia doméstica, normalmente muito optimistas, porque a governanta não ia dizer-lhe que estava a governar mal a casa que lhe pagava o soldo.
Porém, o meu tio teve uma veneta repentina e aí vai ele para fora do país, deixando a governanta na difícil situação de se ver substituída por alguém da confiança do novo baronete. E o pior, é que foi desde logo declarado o estado calamitoso em que a governanta do meu tio deixava a dispensa lá de casa. Além de já não haver nada lá dentro, ainda se descobriu que ela até já devia vários pacotes de mercearia à vizinhança que, orgulhosamente, lhos emprestara.
Entretanto, a casa que havia sido do meu tio, voltou a mudar de residentes, por cair na situação vergonhosa de pré falência. Os anos foram passando e a governanta do meu tio foi assistindo, de fora, às transformações levadas a efeito, sem se pronunciar muito, para não correr o risco de lhe lembrarem pecados velhos dos seus tempos.
Mas, o tempo tudo apaga, pensou ela depois de muito cansada de estar inactiva. Começou por fazer umas críticas, que foram aumentando tom, à medida que ia vendo uma possibilidade de vir a abrir vaga na casa que gerira durante o tempo do meu tio. Mas, ainda antes da vaga, resolveu antecipar-se e foi oferecer os seus préstimos, garantindo que seria uma governanta séria, muito competente, amante do silêncio e, sobretudo, muito experiente.
Depois, delicadamente, bateu à porta. Quem veio abrir não evitou mostrar uma cara de espanto, de tal modo que a deixou sem palavra, ao ouvir:
“ Não, Manuela, tu aqui outra vez?!...”