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afonsonunes

afonsonunes

15 Jun, 2011

Vida nova

 Adoro sentir que alguma coisa de novo anda no ar. É o que pressinto agora com o meu país a experimentar aquela sensação de que, daqui em diante, toda a gente se vai entender às mil maravilhas, sob a batuta de um governo que quer, pode e manda.

Quando vejo e sinto toda a gente sintonizada na mesma onda, não posso deixar de estar nessa, de alma e coração, à espera, ansiosamente, para ver como vai ser possível essa transformação radical da velha vida do prazer total, em vida nova nacional.

Confesso que vai ser muito bonito verificar que vamos passar de uma situação de todos os partidos contra um, para uma situação de um por todos e todos por um. No caso será mais ou menos uma situação de dois por todos e todos por dois.

Trata-se de uma mudança inédita no nosso país. Com a segurança e a garantia de que haverá um que não deixará que ninguém toque nos dois, ainda que ele tenha de tocar a sério nos outros todos, doa a quem doer, que isto não está para folclore.

Para mim, isto é excitante, é mesmo vida nova, até porque não há margem para duvidar da eficácia da força colectiva agora desencadeada, não se sabe como, em troca da velha vida de contendas permanentes, que já passaram à história.

Tenho a certeza de que o mundo já mudou um bocadinho nestes dias da nossa unanimidade, mas o mundo vai mudar totalmente à medida que o nosso exemplo vá sendo seguido lá fora, tal como aconteceu outrora com a nossa revolução dos cravos.

É evidente que desta vez não foi preciso revolução nenhuma, daí que os cravos também não ficariam bem, apenas cravados em algumas lapelas, mas também porque não havia G3 para os colocar nos canos, além de que os militares, alguns de saias, também já são outros.

Parece que os nossos revolucionários se transformaram em monetários, só assim se compreendendo esta união de fundo, já internacional, que nos vai trazer um grande capital de esperança, cada vez com juros mais baixos, como tem vindo a acontecer.

Suponho que já ninguém poderá duvidar de que estamos mesmo no limiar de uma vida nova, ainda que porventura com alguma gente velha, mas absolutamente reconvertida e inserida na lógica da eterna juventude dos que vão sucedendo a si próprios.

Que ninguém pense na vida velha e, sobretudo, que nenhum baixo pense em bota. Aí, logo soariam as campainhas de alarme do alto da torre, que domina tudo o que tem por baixo, agora com a sua posição frontal de intolerável opositor de tudo o que for bota abaixo. 

O país não suportaria nesta vida nova, o que teve de suportar na vida velha. O país não perdoaria aos malvados da vida velha, se fossem agora os sósias dos velhos que já estão a ditar as regras da vida nova. Lá diz o povo na sua sabedoria: não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti. A vingança nunca deve ser servida: nem quente nem fria.

Adoro estas voltas e reviravoltas que me levam a confundir velho com novo e vice-versa, como se o usado pudesse ser qualquer um deles, sem que a minha apreciação demonstrasse qualquer atitude de menor valorização. Vamos para um novo ciclo, dizem. Só espero que não seja o velho círculo vicioso.

Até me apetecia dizer que é tudo igual ao litro, mas não digo. Foi um pensamento leviano e inconveniente que muito lamento. O país precisa de todos os que fizeram asneiras, há muito ou há pouco tempo. O mundo e o país sem asneiras seriam como um curral sem asnos.

O país precisa de quem continue a fazer asneiras, mesmo que tenha de falhar, como tantas outras vezes em que já houve falhanços. E clamorosos. Dizer que não podemos falhar é a mesma coisa que dizer que quem está de fora racha lenha. Porque a lenha tem de ser rachada senão nunca mais ninguém se aquece.

Haja pois vida nova. Não vida nova na continuidade da velha. Com as ideias velhas em cima das novas. Mas, cada qual com as suas ideias. Porque as ideias dificilmente se mudam. Nem se combatem. Discutem-se, simplesmente, porque da discussão nasce a luz.

É hoje que começa a tão prometida vida nova que tanto está a excitar-me.