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afonsonunes

afonsonunes

22 Jun, 2011

Abriu a caça

Neste inédito ano cinegético agora começado, nenhum caçador pode falhar um único tiro. Porque o chumbo está pela hora da morte e a pólvora nem se pode cheirar. Depois, já não há Sócrates para se disparar de olhos fechados, sem atender aos custos de tantos tiros sem o proveito de uma peça de caça para o jantar.

Acresce ainda que o país não pode suportar tantos tiros nos pés, por parte de caçadores míopes que atiram a tudo quanto mexe. Depois, lá vão eles a caminho do hospital, provocando aquela sensação de que mais lhes valia ir ao pé-coxinho, que esperar pelo socorro através dos meios mais baratos.

Esta nova época tem a particularidade de nela ter sido interdita a caça ao coelho. Porque, não estando nós na China, ouvimos determinar a quem de direito que este, e mais os três anos que se seguem, são os anos do coelho. Portanto, muito cuidado, porque ninguém pode acertar, senão lá se vai a arma e não sei que mais.

Vão ser complicados estes anos que se seguem porque, por um lado, não se pode falhar, e ele sabe que não falhará. Por outro lado, não se pode acertar no coelho, porque está protegido por uma voz do além. Não é fácil ser caçador nesta coutada onde as lebres e as perdizes vão ter a vida muito mais complicada, por causa das discriminações.

Sim, porque a caça grossa sempre teve imunidade dentro da coutada. Quando teve o azar de apanhar com algum chumbo de raspão, lá vai ela para o lado de fora, ou mesmo definitivamente para fora. Para onde os nossos caçadores não põem o pezinho, senão perdiam de imediato o emprego na coutada.

Estou completamente rendido à nova administração da coutada. Surpreendentemente, já convenceu todos os caçadores a cumprirem escrupulosamente os seus deveres. A começar pela obrigação de todos, mas mesmo todos, serem portadores da respectiva licença de caça. Obviamente, que isto não era tarefa nada fácil.

Mas, bastou aos novos administradores confessassem que, para darem o exemplo, já todos possuíam esse importante documento, o que não acontecia antes de terem tomado posse. Esta atitude caiu bem nos caçadores furtivos, alguns dos quais já se mostraram disponíveis para pagar a multa respectiva.

Porém, ainda há uns ínfimos pormenores a acertar, para lá dos aramados da coutada. Um pequeno mas aguerrido grupo de crianças exigem a pele do coelho já. Coisas de crianças que ainda nem sabem que o coelho não pode ser esfolado vivo, pois está bem claro que não se lhe pode atirar e, à mão, ninguém chega ao fundo da toca.

Dentro dos aramados, muitos dos que carregavam permanentemente a espingarda com o Sócrates na mira, andam agora mais leves, limitando-se a fazer a apologia do coelho, como animal de extrema utilidade em tempos de crise, agora em reprodução acelerada por causa das necessidades cinegéticas da coutada.

Não me surpreenderia mesmo nada se aqueles que mais espingardeavam até há pouco tempo fossem os primeiros a começar a espingardear por causa da imunidade dada ao coelho. Também não surpreenderá, se os socráticos começarem a acusar os que gostam de coelho de terem um tachinho ao lume na coutada.

E não podem levar-lhes isso a mal, pois são assim as voltas da caça que, para muitos aselhas no manejo do gatilho, são as contingências de muitas dessas voltas acabarem com um bode à cintura, bode que não pesa nada, nem serve para temperar a panela no fim do dia. É triste, mas ainda mais, quando não se pode sequer levar um caçapo para casa.

Pois é. Abriu a caça. E já houve chumbo desperdiçado. Isso quer dizer que juízo é coisa que não abunda. Mas abunda inovação na caça feminina. Duas Assunções já tramaram dois lobos famintos de poder. Com dois tiros certeiros. Boa pontaria.