Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

afonsonunes

afonsonunes

Quando as criancinhas começam a reagir aos desejos dos adultos de as verem fazer umas gracinhas, uma das primeiras solicitações que lhes é feita é, que batam palminhas ao verem assomar-lhes um sorriso nos lábios. Essas palminhas reflectem a felicidade que irradia tanto do lado da inocência que contagia, como do lado contagiado.

Não sei por que carga de água me veio esta ideia das palminhas, mas tenho cá um palpite que foi por me ter apercebido de que na televisão se passava qualquer coisa que, durante um dia quase inteiro, se batiam palmas com uma frequência que me levou a imaginar-me num país de gente feliz a transpirar alegria por todos os poros.

Sim, porque ninguém bate palmas durante tanto tempo, quando as coisas correm mal, isto é, quando se vê a vida a andar para trás, muito menos, quando se batem palmas ao alegar que tudo está mal. Também me parece que as intenções, por melhores que sejam, não justificam tanto sacrifício doloroso do forte bater de mãos.

Sim, porque aquilo, segundo me apercebi, não se tratava de bater palminhas a pedido de alguém que queria ver ou ouvir umas gracinhas. Também não me pareceu que se tratasse de uma vontade explícita de aquecer as mãos, dado que o verão quente já está a queimar as nossas vidas, a ponto de precisarmos de as esfregar com uns cubos de gelo para as esfriar.

Tal estado de alma fez-me lembrar eufóricas inocências ou choros desesperados de falta de maminha nas crianças, nos seus primeiros assomos de alegria e de revolta. É evidente que a televisão apenas me provocou uma lembrança, o que não quer dizer que houvesse lá criancinhas confortadas com a maminha, ou revoltadas pelo tempo que estiveram sem ela.

Portanto, aquilo era tudo gente adulta, que devia dizer coisas muito acertadas e muito importantes para todos eles e todas elas senão, teria ouvido apupos ou coisa pior, se as coisas não fossem merecedoras de tantas palmas. Isso deu-me uma vontade enorme de ir sentar-me em frente da televisão e ficar por ali.

Porém, o meu sétimo ou oitavo sentido, o tal sentido das palminhas, palminhas, fez-me recuar na intenção de ceder a curiosidades mórbidas e, lembrando-me que é preciso ter calma, muita calminha, fui puxado mais para trás, de forma a tirar-me do campo de todas as ilusões, lembrando-me que já tenho idade para ter juízo.

Só não tenho juízo quando me dá para não resistir a esta terrível mania de brincar com alguns dos que considero super brincalhões. Tenho o grande problema de eles só brincarem comigo através de brincadeiras a que eu não tenho acesso directo mas, mesmo assim, lá vou perdendo o meu tempo com eles, simplesmente, porque gosto muito de brincar.

Como não tenho programa próprio tenho de me consolar, brincando com o programa dos outros. É o que estou a fazer com aquele que eu pressenti passar nas televisões no primeiro dia de Julho. Por momentos, cheguei a ter a sensação de que se tratava de um programa do primeiro de Abril.

Mais uma vez me convenci que até os meus pensamentos gostam de inventar brincadeiras que nem sempre são muito convenientes. Sei perfeitamente que nem eles nem eu devemos abusar quando se brinca com coisas sérias. Mas, com tantas palminhas, eu acho que tenho razão para desconfiar da seriedade de tal programa.

Programa chato e divertido ao mesmo tempo porque, ao que parece, de novidades, apenas aquela razia de palminhas e palmadas, a saudar palavras já ouvidas, mentiras repetidas, entusiasmos mal contidos, da boca de quem, de minuto a minuto, fazia a sua pausa estratégica, exactamente, para que as palminhas e palmadas ecoassem nos ares festivos.

Já é sabido que quem não bateu palminhas vai ficar a chupar no dedo, como aquelas criancinhas a quem tiraram a chupeta antes do tempo. Resta-lhes a consolação de olharem à sua volta e verem como os seus amigos se preparam para chupar com todo o vigor, embora prometam que também vão deixar dar umas chupadelas de consolação.

O programa está definitivamente no ar, ocupando agora todo o espaço deixado livre pelas palminhas que se foram, porque o tempo das gracinhas também já lá vai. E sem gracinhas e sem palminhas, a vida torna-se bem mais séria e muito mais difícil, principalmente, se a chupeta também começar a faltar.