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afonsonunes

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Embora considere que este título é cruel, não tenho dúvidas em afirmar que muito mais cruel seria matar o país, através da morte política de todos os corruptos. Seria o mesmo que querer fazer agricultura num terreno sem vermes ou querer viver numa casa totalmente imunizada a todas as espécies de micróbios.

Estou convencido que todos os governos, mas este em especial, iniciaram os seus mandatos com o propósito expresso de um combate sem tréguas à corrupção e, consequentemente, a todos os corruptos. Bonito tema para enfeitar um programa e uma campanha eleitoral. Bonito, sim, mas de uma beleza que não convence ninguém.

Governo que tentasse levar por diante, a sério, tal iniciativa, estaria imediatamente condenado à sua desarticulação, tal a possibilidade de ter de começar por eliminar, um após outro, a quase totalidade dos seus membros, quer por envolvimento directo, quer por ligações a quem nunca se conseguiu libertar desse veneno.

É por isso que tem de haver muito cuidado quando se fala, ou se pretende actuar, neste campo completamente minado. Nunca digam que querem acabar com a corrupção. Isso equivaleria a dizer que a querem matar definitivamente, o que seria um desastre nacional, devido aos danos colaterais que daí adviriam.

Já seria bem bom se alguém, ou algum governo, conseguisse que os corruptos se contivessem dentro de níveis pouco visíveis, isto é, que fizessem os seus arranjinhos sem que nós, os que já fazemos isso, não déssemos por nada, tal como eles não dão por aquilo que o Zé Povinho tão bem sabe fazer com o tratamento das suas obrigações.

É evidente que todos, apesar de cometerem os seus pecados como se ninguém os conhecesse, sabem perfeitamente que eles não são segredo para ninguém. Efectivamente, todos sabem na perfeição que a única maneira de continuarem impunes é deixarem-se em paz uns aos outros, senão a vida seria uma complicação para todos.

Nos níveis mais elevados da política ninguém assume que há individualidades que são corruptas. Mas não se cansam de fazer acusações não concretas, muitas vezes deixando subentender a quem se referem, através de referências que induzam, principalmente os menos informados, a formar juízos precipitados.

Ao nível do cidadão comum toda a gente se sente habilitada para chamar corruptos a todos aqueles que não constam das suas listas de interesses ou de simples simpatias. É frequente ouvir dizer-se que vivemos num país de corruptos. Pessoalmente, concordo com esta visão quase catastrófica, embora me sinta, tal como a totalidade, incluído no meio.

É dentro deste panorama que estranho muito as intenções da nova responsável por este combate inglório, sobretudo pela certeza e pelas palavras que emprega para traduzir a sua vontade. Receio bem que, como tantas vezes acontece, o feitiço se volte contra o feiticeiro, no caso, contra a feiticeira.

Sempre ouvi dizer que quem tem telhados de vidro não deve atirar pedras para o ar. Até porque os telhados dos vizinhos também podem sofrer danos com as pedras atiradas, ainda que o sejam por gente bem-intencionada. Mas, nestas coisas de vizinhança, ninguém se arrisca a criar inimizades.

Pedras e corrupção são coisas muito perigosas. Com as pedras não se brinca e com a corrupção não se pode fazer vista grossa ou selectiva. Tem de se ver tudo até onde a vista alcança, mesmo que não seja até muito longe. Não se pode falar do que não vemos e, muito menos, daquilo que a família e os amigos não vão deixar que vejamos.  

Estamos no tempo e numa conjuntura em que é recorrente dizer-se que não há condições para fazer ou deixar de fazer muitas coisas. Pois bem, não há condições para matar a corrupção. Se o fizessem, se fossem capazes de o fazer, tenho muitas dúvidas se ficaria gente suficiente para aguentar o país de pé.

Portanto, minha senhora, determinação, sim, folclore, não.